Tolstói e a Maçonaria: o retrato iniciático de "Guerra e Paz"

09/09/2026

Apesar de não haver nenhum documento que ateste a iniciação oficial de Lev Tolstói na Maçonaria, a sua obra-prima "Guerra e Paz" demonstra um conhecimento tão profundo dos ritos e da simbologia da ordem que dificilmente seria fruto apenas de leituras superficiais. O protagonista Pierre Bezukhov, atormentado pela separação da devassa Helene, encontra o velho maçom Bazdeev e é conduzido a um processo de purificação espiritual que ocupa o cerne do romance. Na cena da iniciação, Tolstói descreve com precisão quase cirúrgica o ambiente soturno: um longo corredor escuro, iluminado por velas, onde o Evangelho, uma caveira e ossos humanos se impõem como lembretes da finitude, enquanto o retor lhe revela que "a sabedoria suprema não tem por fundamento o raciocínio, mas a ciência do todo e o lugar do homem no universo".

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Durante o cerimonial, Pierre recebe a lição das sete virtudes fundamentais da maçonaria (discrição, obediência, costumateza, amor à humanidade, coragem, liberalidade e amor à morte) e é agraciado com um par de luvas brancas, que deverá entregar à mulher por quem nutrir verdadeiro amor puro. Tolstói, com uma ponta de ironia, expõe a hipocrisia da nobreza russa ao revelar que muitos dos presentes àquela reunião jamais seriam suspeitos de pertencer à Ordem, uma estocada certeira na sociedade do seu tempo. O percurso de Pierre, no entanto, não se encerra nos templos iniciáticos: ele só encontra a verdadeira transformação no cativeiro, ao lado do simples camponês Platon, que lhe ensina que a pureza não está nos ritos secretos, mas na simplicidade da vida quotidiana.

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Mais do que um tratado sobre a Maçonaria, Tolstói utiliza a instituição como metáfora da jornada humana em busca de sentido, mas conclui que o caminho não é a ordem em si, e sim a vivência sincera e despojada do dia a dia. Como ecoa a adaptação cinematográfica de 1956, "quem ama a vida, ama Deus". Essa relação complexa entre o escritor e a Maçonaria é aprofundada no livro "O Alambique de Lev Tolstói, Guerra e Paz e a maçonaria russa", de Raffaella Faggionato, que sustenta que o autor jamais precisou da iniciação formal para compreender a alma humana: bastou-lhe a escrita para mergulhar nas contradições do espírito, oferecendo ao leitor uma reflexão que transcende qualquer loja ou obediência.

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