Livro vendido por 1 euro em feira expõe revelações maçônicas na música erudita e revela como Mozart influenciou a música europeia.

De acordo com o periódico italiano L'unione Monregalese, em meio a pilhas de vinis e livros empoeirados no mercadinho de Fossano, na região do Piemonte, um achado inusitado reacendeu o fascínio pela história secreta da cultura europeia. Por apenas um euro, um garimpeiro levou para casa o catálogo da exposição realizada em 1980 no prestigiado Palazzo Carignano, em Turim, sede do antigo parlamento subalpino que proclamou a unidade italiana. Publicado pelo Assessorato alla Cultura, o volume de 219 páginas, intitulado "La massoneria nella storia d'Italia / La musica massonica", reúne os ensaios dos historiadores Aldo Alessandro Mola e Alberto Basso. Repleto de gravuras, diplomas de Lojas, partituras e medalhas, a obra é uma verdadeira radiografia de como a Maçonaria atuou como uma corrente subterrânea, atravessando o Iluminismo e o Risorgimento até se consolidar no Estado unitário.
A seção que rouba a cena, contudo, é a assinada por Alberto Basso sobre a música massônica. Viajando pela Europa, o autor revela que, em 1749, Rameau já criava a tragédia lírica "Zoroastre", levada à corte de Dresden por Casanova, enquanto em Londres, Francesco Geminiani dirigia a loja Philomusicae. O ponto nevrálgico, porém, explode na Viena do século XVIII. Apesar da bula papal de 1738, os imperadores Francisco I e José II protegeram as Lojas, permitindo que monstros sagrados como Salieri, Haydn e, sobretudo, Wolfgang Amadeus Mozart imergissem na simbologia iniciática. Fruto desse caldeirão iluminista, "A Flauta Mágica", de 1791, surge não apenas como ópera, mas como o testemunho musical máximo dos ritos e arquétipos maçônicos, entrelaçando o bem e o mal em uma partitura eterna. Contudo, as sombras da Revolução Francesa e a consequente desconfiança dos novos soberanos encerraram aquela dourada temporada de influência.
Para além da genialidade de Mozart, o livro resgata a intrincada relação entre a música erudita e a Maçonaria, mostrando que a arte era usada como ferramenta de elevação moral e fraternidade. O catálogo encontrado por acaso no mercadinho não é apenas um item de colecionador; é um fragmento de um mundo desaparecido, um portal para o fervor cultural do século XVIII que nenhum algoritmo de recomendação seria capaz de sugerir. Ao folhear páginas amareladas que mesclam a história do Risorgimento com cifras musicais, o leitor contemporâneo percebe que a verdadeira riqueza está nos objetos aparentemente descartáveis. Em uma época de informações líquidas, a descoberta desse tesouro por um punhado de euros em uma tranquila feira de usados prova que a história, por vezes, espera pacientemente empoeirada em uma banca, pronta para ser revelada a quem ainda tem olhos para enxergar além da capa severa.

