Baphomet: dos Templários a Eliphas Levi

Poucas figuras no imaginário ocidental provocam tanto fascínio e repulsa quanto o Baphomet. Para uns, é a representação máxima do demônio; para outros, um complexo símbolo filosófico da alquimia e do equilíbrio dos opostos. A origem de sua imagem, que conhecemos hoje com corpo andrógino, cabeça de bode, seios femininos e braços com as palavras "Solve" e "Coagula", é bastante clara: foi criada pelo ocultista francês Éliphas Levi no século XIX. No entanto, a história por trás dessa figura e suas conexões são frequentemente envoltas em confusão e desinformação. Este artigo busca elucidar a verdadeira origem do Baphomet, seu profundo significado filosófico na obra de Levi e, crucialmente, esclarecer sua relação com a Maçonaria, uma associação fruto de uma das maiores farsas antimaçônicas da história.
1. A Origem Medieval e a Conexão com os Templários
O nome Baphomet aparece pela primeira vez na história durante os julgamentos dos Cavaleiros Templários no início do século XIV. O rei Filipe IV da França, endividado com a poderosa ordem militar, e o Papa Clemente V, desejando minar sua autoridade, prenderam, torturaram e condenaram os templários sob acusações de heresia, sodomia e idolatria (Britannica, 2019). Nessas transcrições da Inquisição, surgia a alegação de que os cavaleiros adoravam um ídolo pagão chamado Baphomet. No entanto, não há nenhuma descrição consistente desse suposto ídolo nos documentos da época; acreditam estudiosos que "Baphomet" pode ter sido uma corrupção da palavra "Maomé" (Muhammad), usada para acusar os templários de cripto-islâmicos ou de práticas heréticas (Kruger, 1999; Nicolotti, 2017).
Apesar das torturas, as confissões variavam enormemente, e não existe qualquer evidência de que os templários cultuassem a figura que conhecemos hoje. Em sua obra "Dogma e Ritual da Alta Magia", Levi discute essa relação histórica, afirmando que, em sua convicção, os grãos-mestres dos templários possuíam uma doutrina oculta e "adoravam Baphomet" como um símbolo de uma antiga iniciação, um mistério cósmico, e não como uma figura diabólica.
2. A Criação Moderna por Éliphas Levi
A imagem icônica do Baphomet foi concebida por Éliphas Levi (nascido Alphonse-Louis Constant) e publicada em 1855 em sua obra fundamental, Dogma e Ritual da Alta Magia (Doctrine and Ritual of High Magic) (Britannica, 2019). Longe de ser um símbolo satânico, Levi criou a figura como a representação visual de sua complexa filosofia mágica, que ele chamava de "Síntese". Para ele, o Baphomet é o "Deus dos gnósticos primitivos", o "Deus de Platão e Espinosa" e um símbolo do "Panteísmo" (Strube, 2017). O historiador Julian Strube (2017) argumenta que, embora o Baphomet desenhado por Eliphas Levi seja uma das imagens esotéricas mais famosas em todo o mundo, muito pouco se sabe sobre o contexto de seu surgimento. Marvell (2015) sugere que o objetivo de Levi era fazer de seu Baphomet o emblema hieroglífico definitivo, a condensação suprema dos mistérios da tradição oculta.
A possível inspiração visual para o desenho de Levi é uma figura localizada na Igreja de Saint-Merry (ou Saint-Merri), em Paris. No topo do portal oeste da igreja, há uma gárgula ou escultura restaurada entre 1841 e 1843 pelo arquiteto Étienne-Hippolyte Godde que se assemelha notavelmente ao Baphomet, com chifres, asas e seios femininos (Lynn, 2024). Levi, que viveu em Paris e publicou seu livro logo depois, provavelmente se inspirou nessa escultura gótica extravagante para criar seu próprio emblema.

3. O Simbolismo Profundo do Baphomet
Cada elemento na gravura de Levi foi meticulosamente escolhido para transmitir um significado filosófico:
A Cabeça de Bode: Simboliza o reino material, a natureza animal e as expiações que a alma deve enfrentar durante sua jornada de purificação.
Os Seios Femininos e o Corpo Andrógino: Representam a união dos opostos, a perfeição e a totalidade. A figura não é nem masculina nem feminina, mas a síntese de ambos. Fernandes, Sá e Gansohr (2013) concluem que o Baphomet é um símbolo do self, o arquétipo da totalidade psíquica, que tem por finalidade ser uma alternativa à imagem primordial cristã de autorrealização, mais integradora e menos repressora que esta.
Os Braços com "Solve et Coagula": Esta é uma máxima alquímica fundamental. Nos braços da figura estão escritas as palavras "SOLVE" (dissolver) e "COAGULA" (coagular), representando os processos de quebrar uma substância ou conceito em seus componentes básicos e depois reuni-los em uma forma nova e mais refinada (Fernandes, Sá & Gansohr, 2013).
O Pentagrama na Testa: A estrela de cinco pontas (pentagrama) apontando para cima representa a luz, o microcosmo e o poder da mente humana. Simboliza o esforço intelectual para se elevar acima da matéria.
Os Chifres e as Asas: Os chifres representam o dualismo e o poder instintivo, enquanto as asas simbolizam a ascensão espiritual e a sublimação. Levi queria mostrar um ser que transcende os opostos.
O Caduceu: No lugar do órgão gerador, está o caduceu de Hermes (o bastão com duas serpentes), simbolizando a força vital, o equilíbrio perfeito e a cura espiritual, transcendendo os reinos da dualidade.

Na filosofia de Levi, o Baphomet está intrinsecamente ligado ao conceito de "Luz Astral". A Luz Astral é descrita como um "mediador plástico universal", um fluido magnético que serve como elo entre o mundo espiritual e o material (Strube, 2017). É um repositório universal de todas as imagens, pensamentos e formas, sendo o agente mágico que o mago treinado (pela vontade e instrução) pode manipular. A figura de Baphomet, portanto, é a própria personificação deste princípio, um ser que ascende ao espírito e também desce à matéria, representando o equilíbrio perfeito entre essas forças.
4. A Verdadeira Relação entre Baphomet e a Maçonaria: A Fraude de Léo Taxil
Essa é a conexão que mais gera controvérsia, e a resposta é direta e factual: a figura do Baphomet não faz parte do simbolismo oficial da Maçonaria. O Scottish Rite Masonic Museum & Library confirma categoricamente: "Baphomet has no association with Freemasonry" (Scottish Rite Masonic Museum & Library Blog, 2009). A crença no contrário originou-se de uma das maiores farsas do século XIX, orquestrada pelo francês Léo Taxil (Marie Joseph Gabriel Antoine Jogand-Pagès).
Taxil foi um maçom expulso da ordem em 1882 por plágio e difamação. Em 1884, o Papa Leão XIII publicou a encíclica Humanum Genus, que criticava a Maçonaria. Vendo uma oportunidade de vingança, Taxil fingiu converter-se ao catolicismo e iniciou uma série de publicações "revelando" que a Maçonaria era na verdade uma seita satânica que adorava o demônio Baphomet (Doherty, 2020). Ele inventou uma ordem maçônica secreta chamada Palladium, com sede em Charleston, e alegou que todos os seus rituais envolviam o culto a essa figura herética. A fantasia de Taxil foi tão elaborada que enganou a Igreja Católica e o público por mais de uma década (van Luijk, 2023).
Em 1897, após anos de sucesso com suas histórias fantasiosas, Léo Taxil confessou publicamente a farsa em uma coletiva de imprensa, admitindo que tudo não passava de uma vingança contra a Maçonaria e uma "brincadeira" para ridicularizar a credulidade da Igreja (Doherty, 2020). Portanto, a associação popular entre o Baphomet e a Maçonaria é um mito, um artefato histórico criado exclusivamente por um mentiroso profissional para prejudicar a ordem.
Conclusão
O Baphomet, como o conhecemos, é principalmente uma criação de Éliphas Levi. É um símbolo rico e complexo que representa o equilíbrio dos opostos, os mistérios da alquimia e o conceito filosófico da Luz Astral, servindo como uma tentativa de síntese espiritual do século XIX. Embora seu nome tenha raízes nas acusações medievais contra os Templários, sua imagem é um produto do ocultismo moderno. Quanto à sua conexão com a Maçonaria, fica claro que se trata de uma invenção caluniosa, fruto da "Fraude de Taxil". Usado por grupos satânicos contemporâneos (como a Igreja de Satã, que adotou uma versão modificada do símbolo) ou explorado em romances como "O Código Da Vinci", o Baphomet demonstra o poder das imagens, que podem carregar consigo camadas inteiras de história, filosofia e desinformação.
Por RS Lora
Referências
Britannica, T. Editors of Encyclopaedia. (2019). Baphomet. Encyclopedia Britannica.
Doherty, B. (2020). The Taxil Hoax: An Introduction. Journal of the Australian Catholic Historical Society, 41, 105–118.
Fernandes, E. G., Sá, J. F. R., & Gansohr, M. (2013). Aterradora transcendência? Uma análise simbólica do Bafomé de Éliphas Lévi. HORIZONTE - Revista de Estudos de Teologia e Ciências da Religião, 11(31), 1129-1149.
Kruger, A. (1999). The 'Baphomet idol' - Contribution to the question of the provenience of the principal accusations against the Templar Order. Historisches Jahrbuch, 119, 120-133.
Lynn, H. (2024). Baphomet Revealed: Mysteries and Magic of the Sacred Icon. Red Wheel/Weiser.
Marvell, L. (2015). Headless and Unborn, or the Baphomet Restored Interfering with Bataille and Masson's Image of the Acephale. Lea, 4(4).
Nicolotti, A. (2017). L'idolo/statua dei Templari: dall'accusa di idolatria al mito del Bafometto. In Statue. Rituali, scienza e magia dalla Tarda Antichità al Rinascimento (Micrologus Library 81, pp. 277-333). SISMEL - Edizioni del Galluzzo.
Scottish Rite Masonic Museum & Library Blog. (2009). Leo Taxil and Baphomet.
Strube, J. (2017). The 'Baphomet' of Eliphas Lévi: Its Meaning and Historical Context. In Eliphas Lévi and the French Occult Revival.
van Luijk, R. (2023). Léo Taxil, Le Palladium régénéré et libre (1895). In P. Faxneld & J. Nilsson (Eds.), Satanism: A Reader (pp. 93-103). Oxford University Press.

