A polaridade mundana e a Maçonaria

A percepção popular e, por vezes, a análise midiática apressada, frequentemente envolvem a Maçonaria em um manto de suspeição, atribuindo-lhe um poder oculto e uma agenda política monolítica, comumente vinculada a interesses conservadores ou governamentais. Acusações de que a instituição seria uma ferramenta de "direita" ou uma rede de influência a serviço de Estados e seus aparelhos são recorrentes em diversos debates públicos. No entanto, um exame mais detido de seus princípios constitutivos e de seu funcionamento ao redor do mundo revela um quadro diametralmente oposto. É preciso desmistificar essa visão reducionista, demonstrando que a Maçonaria, como instituição, é fundamentalmente apolítica e apartidária, constituindo-se como uma agremiação focada na filantropia, na busca pela verdade e no aperfeiçoamento ético de seus membros. A confusão conceitual entre as convicções pessoais de seus integrantes e a posição oficial da ordem pode ser exemplificada por meio de dois casos emblemáticos: a liderança de um senador socialista na Gran Logia da Espanha e a notável coexistência interétnica promovida pela Maçonaria em Israel, onde a presidência da Grande Loja já foi exercida por cidadãos árabes.
Desde as suas Constituições de 1723, redigidas por James Anderson sob os auspícios do Reverendo George Payne, a Maçonaria estabeleceu como um de seus marcos inegociáveis a proibição de discussões sobre religião e política em seus templos. Em sua essência, a ordem se define como uma sociedade de homens unidos por laços de fraternidade, cujo objetivo principal é o desenvolvimento moral e intelectual de seus membros, utilizando símbolos e alegorias da arte de construir (Mackey, 1869). Como registra a Gran Logia de Espanha em seus princípios, trata-se de uma "associação filantrópica que pretende o conhecimento, melhorar como pessoa e ser feliz e espalhar felicidade". A proibição do debate político-partidário nas Lojas não é uma casualidade, mas uma condição de possibilidade para a própria existência de uma fraternidade universal, que acolhe "homens de qualquer raça, religião, crença política ou status". Ao vedar esses temas divisivos, a Maçonaria cria um espaço seguro de convivência e respeito mútuo, onde o foco recai sobre o que une os irmãos: os valores de liberdade, igualdade e fraternidade.
A realidade espanhola contemporânea oferece um exemplo contundente do equívoco de se rotular a Maçonaria com base na cor política de seus líderes. Desde 2022, o cargo de Muito Respeitável Grão-Mestre da Gran Logia de España, a obediência maçônica regular majoritária do país, é ocupado por Txema Oleaga, um político de carreira do Partido Socialista Obrero Español (PSOE), que atua ativamente como senador e porta-voz da legenda. A eleição de um socialista não significa, contudo, que a instituição tenha se filiado ao PSOE ou a qualquer outra agenda partidária. Pelo contrário, a própria ascensão de Oleaga ao cargo foi resultado de um processo eleitoral interno competitivo, no qual outras candidaturas, incluindo a de membros do PSOE e de outros espectros, também se apresentaram.
O mais significativo, no entanto, foi seu testemunho público sobre a convivência dentro da Loja, que transcende as mais profundas fissuras políticas da sociedade espanhola. Em entrevista, Oleaga revelou que, no seio da Gran Logia, conviveu fraternalmente com um "irmão" militante da esquerda abertzale (palavra basca que significa patriota, usada para designar o campo político que defende a independência basca), uma força política que ele, como político socialista, combate no parlamento. Ao comentar essa experiência, o Grão-Mestre afirmou: "Fomos capazes de conviver e de demonstrar que a convivência nos torna melhores". Este relato, em linha com a regra de não discutir política nos templos, demonstra que a fraternidade maçônica não apenas tolera, mas logra construir laços de respeito e amizade entre indivíduos de posições ideológicas antagônicas na esfera pública, provando que a organização é um espaço de encontro e não de confronto partidário.
Talvez o exemplo mais eloquente da capacidade da Maçonaria de se posicionar acima das linhas de fratura nacionais e religiosas seja o de Israel. Em uma região marcada por décadas de conflito armado e tensões étnico-religiosas, a Grande Loja do Estado de Israel constitui-se como um verdadeiro "farol de paz e harmonia" (Lora, 2021) (https://revistaseug.ugr.es/index.php/revpaz/article/view/21137). A ordem reúne 57 Lojas ativas, nas quais judeus, muçulmanos, cristãos e drusos trabalham juntos em mais de dez idiomas, incluindo hebraico, árabe e inglês. As Lojas não se limitam a uma coexistência pacífica; elas a institucionalizam em seus rituais e símbolos. O selo da Grande Loja de Israel, herdado da Grande Loja Nacional da Palestina, exibe juntas a Estrela de Davi, a Lua Quarto-crescente e a Cruz, representando o Judaísmo, o Islamismo e o Cristianismo, enquanto o Altar das Lojas comporta a Torá, o Alcorão e a Bíblia.
Um fato particularmente elucidativo para o argumento central é a escolha de sua liderança máxima. Há poucos anos, o Grão-Mestre da Grande Loja do Estado de Israel era o Irmão Nadim Mansour, um cidadão israelense de origem árabe. Esta não teria sido uma exceção isolada, pois a instituição já foi "presidida diversas vezes por líderes árabes". Em um contexto nacional onde a política identitária é exacerbada, a Maçonaria demonstra sua natureza apartidária e supranacional ao eleger um membro de uma minoria étnica para seu mais alto posto. A ordem consegue, assim, criar o que a literatura acadêmica denomina um espaço para o exercício de uma "cidadania compartilhada", baseada em valores comuns e não na pertença a um grupo nacional ou religioso específico (Moses, 2022) ou até mesmo a ideia de uma paz cooperativista (Lora, 2021).
Os casos espanhol e israelense conduz a uma conclusão inescapável: a Maçonaria, enquanto instituição, é fundamentalmente apartidária. As filiações políticas de seus membros, sejam eles socialistas na Espanha, conservadores no Brasil ou líderes árabes em Israel, são manifestações de sua liberdade individual e de consciência, e não uma diretriz da ordem. A confusão entre o foro íntimo do maçom e a posição institucional é um erro lógico que alimenta teorias conspiratórias desprovidas de fundamento. Ao vedar o debate político-partidário em seus templos e ao abrir suas portas a homens de todas as crenças e origens, a Maçonaria constitui-se como uma das mais antigas e persistentes escolas de formação ética e de convivência fraternal da civilização ocidental. Ela demonstra que é possível construir um espaço de encontro para além dos antagonismos que fragmentam a sociedade, atuando como um exemplo de coexistência e tolerância, valores mais necessários do que nunca.
Por Rui Samarcos Lora
Referências
Grande Loja do Estado de Israel. (1953). História e Princípios. [Documento institucional].
Lankin, E. M. (2026). Amid Strife, Freemasonry in Israel Serves as a Beacon of Peace and Harmony. The Pennsylvania Freemason Magazine.
Lora, R. S. (2021). Los Landmarks de la masonería como referencias de la paz cotidiana entre judíos y árabes. Revista de Paz y Conflito. Universidad de Granada, España. https://revistaseug.ugr.es/index.php/revpaz/article/view/21137
Mackey, A. G. (1869). The Principles of Masonic Law. Richmond & Co.
Moses, C. (2022, 21 de novembro). Freemasonry in Israel, an interview with Claudio Moses. Aurora Israel.
Oleaga, T. (2026, 9 de abril). La masonería, una escuela de ciudadanía basada en la libertad, igualdad y fraternidad. [Entrevista concedida a T. López-Carrasco]. Onda Cero.

