Sobreviverá a Maçonaria ao novo cenário na Venezuela?

03/01/2026

A pergunta ecoa nos corredores do tempo e das lojas discretas: a fraternidade que ajudou a forjar a alma republicana da Venezuela sobreviverá ao duplo cerco do autoritarismo interno e da pressão geopolítica externa? A história desta instituição no país é um reflexo fiel de suas convulsões políticas, uma narrativa que vai da luz do protagonismo às sombras da sobrevivência, e cujo capítulo atual é escrito sob o signo da resistência silenciosa.

As raízes maçônicas na Venezuela estão entrelaçadas com o próprio ideal de liberdade. A figura central, Simón Bolívar, é o único herói da independência latino-americana com filiação maçônica comprovada por documentação histórica sólida. Iniciado na Europa no início do século XIX, Bolívar não só foi membro como fundou e serviu como Venerável Mestre da Loja "Protetora de las Virtudes" em solo venezuelano. Contudo, é crucial separar a história do mito. Enquanto a lenda atribui a vários libertadores uma filiação maçônica, a pesquisa histórica sugere que sociedades secretas inspiradas no modelo associativo maçônico, como a Loja Lautaro, foram mais decisivas para a conspiração independentista do que as lojas regulares propriamente ditas. Essas sociedades, que adotavam rituais e estruturas de sigilo, serviram como cadinho onde as elites crioulas articularam o projeto de emancipação, tornando-se um prelúdio dos partidos políticos. Após a independência, a Maçonaria institucionalizou-se e floresceu ao longo do século XIX, influenciando a vida política e a construção do Estado laico.

O século XX trouxe mudanças. Com a ascensão de Hugo Chávez e a consolidação do regime de Nicolás Maduro, qualquer espaço de sociabilidade independente do Estado passou a ser visto com desconfiança estrutural. Para um governo de tendência autoritária, uma rede fraternal discreta, com tradição liberal e laços transnacionais, representa uma anomalia potencialmente perigosa. A resposta da Maçonaria, conforme atestado por vozes dentro da própria fraternidade, foi um retraimento estratégico: de uma instituição discreta, passou a operar de maneira "verdadeiramente secreta". O foco deslocou-se da esfera pública para a ação silenciosa — o apoio filantrópico em meio à crise humanitária e a preservação dos laços de fraternidade, agora na mais estrita clandestinidade operacional. Este não é um fenômeno inédito na região; o próprio Brasil viveu períodos semelhantes de clandestinidade maçônica durante fases autoritárias de sua história.

Este cenário interno de asfixia é dramaticamente exacerbado pelo cerco geopolítico internacional. No final de dezembro de 2025, a administração do presidente norte-americano Donald Trump intensificou drasticamente sua pressão sobre Caracas. O Departamento do Tesouro dos EUA aplicou novas sanções a um conjunto de empresas e navios petroleiros que operam no setor petrolífero venezuelano, visando especificamente uma "frota paralela" usada para evadir embargo anteriores. Estas ações, descritas por Washington como parte de uma campanha para impedir que o "regime ilegítimo de Maduro" lucre com o petróleo, foram acompanhadas por um significativo deslocamento militar norte-americano no Caribe, classificado por Maduro como a maior mobilização nas décadas recentes. Analistas sugerem que, apesar da retórica forte, as sanções podem representar um "recuo estratégico" ou um "anticlímax" na escalada, indicando que Trump percebeu os limites de uma pressão máxima. No entanto, o efeito prático para a Venezuela é o de um ambiente de tensão máxima, no qual Maduro se apresenta como vítima de uma "agressão" e de "pirataria estatal", buscando capital político com um discurso de soberania nacional sob cerco.

O futuro da Maçonaria venezuelana será definido nesta intersecção perigosa. A pressão externa, ao aumentar a paranoia do regime, pode levar a uma vigilância interna ainda mais feroz, onde qualquer grupo não alinhado será visto como uma potencial "quinta-coluna". Paradoxalmente, em uma nação sob estresse social e econômico extremo, as redes de apoio mútuo e solidariedade discreta oferecidas por uma fraternidade como a maçônica podem adquirir um valor inestimável. Sua capacidade de sobrevivência dependerá de sua perícia em navegar um caminho quase invisível: manter viva a chama de seus ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, sem jamais oferecer ao autoritarismo o pretexto para sua aniquilação aberta. Seu destino, portanto, será mais do que a saga de uma sociedade secreta; será um barômetro crucial da capacidade de resiliência das instituições da sociedade civil ante a tormenta política. A pergunta que abre este texto permanece, agora mais pungente: em meio ao silêncio forçado, ela guarda a semente de um futuro renascimento, ou seu murmúrio será finalmente abafado pelo rugido da geopolítica e pelo peso do controle absoluto?