Série: Quatuor Coronati (Volume LXXII de 1960) - "A Antiguidade do Ritual de Mestre"

A Antiguidade do Ritual Mestre: Análise do Contributo de R.J. Meekren na Ars Quatuor Coronatorum (1960)
A historiografia maçónica do século XX debateu intensamente as origens e a evolução dos graus simbólicos, com especial enfoque na suposta "invenção" do grau de Mestre Maçom após a fundação da Grande Loja de Londres em 1717. Num contexto dominado por narrativas que atribuíam a formação do Terceiro Grau a um período de inovação deliberada nas décadas de 1720-1730, o artigo de R.J. Meekren, intitulado "The Age of the Master's Part" e publicado no volume LXXII da Ars Quatuor Coronatorum (1960), surge como um desafio metodológico e teórico de grande relevância. Meekren não se limita a propor uma cronologia alternativa; antes, reconstrói a genealogia do ritual mediante uma análise antropológica e documental sofisticada, argumentando que os elementos nucleares do que viria a ser o grau de Mestre já existiam, sob forma embrionária, muito antes da institucionalização da Maçonaria especulativa.
A originalidade da abordagem de Meekren reside na sua dupla condição de historiador e de antropólogo amador. Enquanto muitos dos seus contemporâneos se concentravam numa leitura institucional e política dos textos fundadores, como as Constituições de Anderson (1723), Meekren dirige a sua atenção para os chamados "documentos de exposição" (exposures) do século XVIII, nomeadamente Masonry Dissected (1730) de Samuel Prichard e uma série de textos franceses, como Le Secret des Francs-Maçons (1744) e L'Ordre des Francs-Maçons Trahi (1745). Estes textos, muitas vezes desvalorizados como meras curiosidades ou plágios, são por ele entendidos como vestígios preciosos de práticas ritualísticas em fluxo. A sua análise comparada permite-lhe identificar a persistência de gestos, palavras de passe e estruturas narrativas que, embora apresentadas de forma desordenada ou sincrética, testemunham a existência de um cerne ritual anterior à sistematização grandlógica.
O argumento central de Meekren é que a ação ritual precede e gera a narrativa mítica, e não o contrário. Esta premissa, que bebe das então emergentes teorias antropológicas sobre a relação entre mito e ritual (como as desenvolvidas por William Simpson em The Jonah Legend, 1899), é aplicada com consistência à lenda de Hiram Abif. Para Meekren, os gestos fundamentais associados ao grau de Mestre, com destaque para os Cinco Pontos de Companheirismo, não nasceram da história dramática do arquiteto do Templo de Salomão; antes, esta história terá sido elaborada progressivamente, ao longo do século XVIII, para fornecer uma explicação narrativa e moralizante a um conjunto de ações ritualísticas já estabelecidas. Esta inversão causal é revolucionária: desloca a questão da "idade" do grau do plano da criação literária para o plano da transmissão performativa. A antiguidade que Meekren defende não é a da lenda escrita, mas a da prática gestual e do seu significado simbólico imanente.
Para sustentar esta tese, Meekren recorre a uma análise diacrónica minuciosa. Ele traça uma linha evolutiva que parte de documentos pré-1717, como o manuscrito de Edimburgo (Edinburgh Register House MS, c. 1696), onde se aludem a "pontos de companheirismo" associados ao estatuto de Mestre ou Companheiro, e culmina nas elaboradas exposições francesas da década de 1740. Neste percurso, deteta-se um processo de cristalização gradual: elementos que aparecem de forma fragmentária e desconexa em Prichard (1730), como a frase "from the Square to the Compass", adquirem, em textos posteriores, uma função clara no seio de uma cerimónia estruturada. Esta evolução não seria o resultado de uma invenção súbita, mas sim da lenta codificação e explicitação de uma tradição já existente, provavelmente transmitida de forma oral e com variações locais significativas.
Um aspeto particularmente interessante do artigo é a forma como Meekren relaciona a fixação da lenda de Hiram com a história cultural mais ampla da Europa. Ele sugere que o ressurgimento do nome "Hiram Abif" na literatura maçónica do século XVIII pode estar ligado ao impacto das primeiras traduções vernaculares da Bíblia, nomeadamente a Bíblia de Coverdale (1535) e a de Matthew (1549), onde a forma "Abif" aparece transliterada. Após um período em que esta designação desapareceu das versões inglesas, o seu reaparecimento nas Constituições de Anderson (1723) indiciaria uma tradição oral subterrânea entre os maçons operativos, para quem Hiram personificava o arquétipo do Mestre Construtor. Deste modo, a apropriação maçónica da figura bíblica não seria um acto de pura ficção, mas antes a reactualização de um motivo simbólico há muito presente na cultura do ofício.
A recepção do artigo no seio da Quatuor Coronati Lodge, transcrita nas páginas que se seguem à sua leitura, revela o carácter provocador das suas teses. Irmãos como Bernard Jones e J.R. Rylands colocaram objecções pertinentes, questionando se, em alguns casos, o mito não poderia realmente preceder o ritual – citando, por exemplo, a forma como o grau do Real Arco se construiu a partir de narrativas bíblicas pré-existentes. Na sua extensa resposta escrita, Meekren manteve a sua posição teórica fundamental, reconhecendo, no entanto, que a Maçonaria especulativa do século XVIII foi um cadinho criativo onde antigos fragmentos ritualísticos puderam ser recombinados e reinterpretados de maneiras novas. Esta nuance é crucial, pois afasta a sua obra de uma visão simplista de continuidade linear, abrindo espaço para o reconhecimento da inovação no seio da tradição.
O legado do artigo de Meekren é duradouro. Embora investigações posteriores, baseadas em arquivos mais vastos, possam ter refinado ou mesmo contestado alguns dos seus pormenores, a sua contribuição metodológica permanece fundamental. Ao insistir na primazia do ritual sobre o mito e ao tratar os textos de exposição como fontes históricas dignas de análise crítica, ele elevou o padrão da pesquisa maçónica. A sua obra convida-nos a ver os graus maçónicos não como invenções arbitrárias, mas como o produto de uma longa e complexa sedimentação cultural, em que gestos, símbolos e narrativas se entrelaçam de modo dinâmico. Neste sentido, "The Age of the Master's Part" transcende o debate sobre uma datação precisa, oferecendo um modelo interpretativo rico para compreender a própria natureza da transformação ritual na modernidade.
Referências Citadas (com base no artigo e no seu contexto):
MEEKREIN, R.J. "The Age of the Master's Part". Ars Quatuor Coronatorum, vol. 72, 1960, pp. 28–55.
PRICHARD, Samuel. Masonry Dissected. London, 1730.
PERAU, Gabriel-Louis Calabre (L'Abbé). Le Secret des Francs-Maçons. Geneva, 1744.
TRAVENOL, Louis. Le Catéchisme des Francs-Maçons. 1744.
L'Ordre des Francs-Maçons Trahi. Amsterdam, 1745.
SIMPSON, William. The Jonah Legend: A Suggestion of Interpretation. London, 1899.
The Edinburgh Register House Manuscript. c. 1696. In: KNOOP, D.; JONES, G.P.; HAMER, D. (Eds.). The Early Masonic Catechisms. Manchester University Press, 1943.
ANDERSON, James. The Constitutions of the Free-Masons. London, 1723.
STEVENSON, David. The Origins of Freemasonry: Scotland's Century, 1590–1710. Cambridge University Press, 1988. (Obra posterior que dialoga criticamente com as teses sobre antiguidade).
SNOEK, Jan A.M. "The Evolution of the Hiramic Legend in England and France". Heredom, vol. 11, 2003, pp. 11-53. (Exemplo de estudo que desenvolve e complexifica a linha de investigação aberta por Meekren).
Por Rui Samarcos Lora

