Por que o Venerável Mestre usa chapéu?

30/12/2025

A prática de o Venerável Mestre (Worshipful Master) permanecer com a cabeça coberta durante as sessões da Loja Maçônica, enquanto os demais irmãos se descobrem, remonta a costumes ancestrais que associam a cobertura da cabeça à autoridade soberana. Em diversas culturas, desde a Antiguidade Clássica até a Idade Média, reis, juízes e líderes rituais mantinham-se cobertos como privilégio de poder, enquanto súditos ou inferiores removiam o chapéu em sinal de submissão ou respeito. No contexto maçônico, essa tradição não constitui um "Landmark", isto é, um princípio imutável da Ordem, mas um costume simbólico herdado de práticas sociais e cerimoniais europeias. Albert G. Mackey, em The Symbolism of Freemasonry (1869), enfatiza que ornamentos como vestes e acessórios na Maçonaria funcionam como hieróglifos espirituais, representando graus de iniciação e autoridade, embora não aborde o chapéu especificamente. Estudos americanos contemporâneos, como o artigo "Is It Mandatory That The Worshipful Master Wear a Hat?" do Masonic Lodge of Education (2007), afirmam que o chapéu distingue o Mestre como figura régia, ecoando o rei Salomão no Templo, e deve ser usado consistentemente como emblema de ofício, removido apenas perante autoridade superior, como o Grande Arquiteto do Universo ou o Grão-Mestre.​

O chapéu do Mestre é frequentemente interpretado como uma coroa simbólica, aludindo diretamente à realeza de Salomão, patrono mítico da Maçonaria. Essa analogia é explícita em fontes inglesas e americanas: no ensaio "The Master's Hat" do The Masonic Trowel (baseado em publicações do início do século XX), o chapéu é descrito como insígnia de "superioridade e liberdade", herdada de tradições romanas e teutônicas, onde juízes e soberanos usavam cobertura cefálica para transferir autoridade ou presidir assembleias. Da mesma forma, o artigo "Worshipful Master's Hat" no Masonry 101 (2020) declara que "o chapéu representa a coroa de Salomão, significando que o Mestre governa a Loja como o rei sábio governava Israel". Em Early History and Antiquities of Freemasonry de George Oliver (1841-1846), um historiador inglês influente, menciona-se que mestres maçônicos medievais imitavam cortesãos reais, usando chapéus para denotar igualdade fraterna e liberdade, prática preservada em Lojas como a Royal Sussex em Bristol, onde o chapéu é transferido na Instalação. Essa leitura reforça o chapéu não como mero adorno, mas como marcador hierárquico, alinhado à etiqueta de cortes medievais descrita por Walter Scott em The Lady of the Lake (1810), onde o rei permanece único coberto entre cortesãos.​

Uma interpretação mais esotérica conecta o chapéu-coroa à Cabala judaica, onde Keter (hebraico para "coroa") é a sefira primordial na Árvore da Vida, simbolizando a vontade divina pura, soberania absoluta e o ponto transcendente "acima da cabeça", além do intelecto racional. Autores que exploram interseções entre Maçonaria e Cabala, como em "Kabbalah and Freemasonry" de Franz Farwerck (publicado postumamente em 2020, baseado em manuscritos dos anos 1930), argumentam que símbolos maçônicos como o Oriente, assento do Mestre, evocam Keter como fonte de ordem cósmica, com o chapéu representando a "coroa de luz" que une o ritual terreno ao divino. No ensaio acadêmico "Freemasonry and Jewish Kabbalah: An Unusual Association" (Academia.edu, 2019), discute-se como rituais do século XVIII incorporaram elementos cabalísticos via influências rosacruzes, tornando o chapéu do Mestre um emblema de Keter: autoridade espiritual que "coroa" a Loja, mediando entre o profano e o sagrado. Manly P. Hall, em The Secret Teachings of All Ages (1928), um clássico americano do esoterismo, corrobora essa ponte ao descrever Keter como arquétipo da monarquia divina, análogo à realeza salomônica na Maçonaria. Assim, em chave hermenêutica, o chapéu não é apenas régio, mas metafísico, sinalizando que o Venerável Mestre encarna, ritualisticamente, a soberania de Keter sobre a assembleia iniciática. Essa síntese, embora não normativa nos Grandes Orientes, enriquece estudos comparativos, sustentada por fontes como as de Mackey e Oliver para o simbolismo maçônico, e Gershom Scholem para a Cabala.

Por Rui Samarcos Lora