O Rito de Heredom

10/12/2025

A investigação sobre as origens e desenvolvimento da Ordem Real de Heredom de Kilwinning oferece um caso paradigmático para o estudo da construção de tradições dentro do fenômeno maçônico. Esta ordem, que se apresenta como guardiã de uma linhagem iniciática que remonta ao século XIV na Escócia, constitui um objeto complexo onde mito, política e história se entrelaçam de forma inextricável. A análise que se segue procura deslindar esses fios, confrontando a narrativa tradicional perpetuada pela ordem com os achados da pesquisa historiográfica crítica, com especial atenção ao contexto político jacobita do século XVIII.

O ponto de partida factual incontroverso reside na histórica Loja Mãe de Kilwinning, uma das mais antigas da Escócia, cujas raízes estão associadas à construção da Abadia de Kilwinning no século XII. A conexão desta loja operativa com a aristocracia local é atestada pelo fato de os Barões Sinclair de Rosslyn terem detido, de forma hereditária, o título de "Patrono e Protetor dos Maçons da Escócia" desde o século XV até 1736. Este vínculo concreto forneceu o substrato histórico sobre o qual narrativas mais elaboradas seriam posteriormente erigidas.

A tradição interna da Ordem do Heredom constrói uma narrativa épica de continuidade e resistência. Seu mito fundador central data a sua criação ao ano de 1314, imediatamente após a Batalha de Bannockburn. Segundo esta versão, o rei Roberto I da Escócia, em agradecimento pelo suposto auxílio decisivo de cavaleiros templários refugiados, teria fundado a Ordem de Santo André do Cardo, no seio da qual teria sido estabelecido o grau de Heredom de Kilwinning. Esta história posiciona a ordem como a legítima herdeira do legado templário na Escócia e como a guardiã da "verdadeira" maçonaria em oposição às inovações da Grande Loja de Londres de 1717. Como nota o historiador David Stevenson em sua obra seminal, a maçonaria escocesa desenvolveu características únicas muito antes do surgimento da maçonaria especulativa inglesa, um fato que serviu de fermento para estas narrativas de antiguidade e autenticidade.

A narrativa tradicional prossegue vinculando inextricavelmente o destino do Heredom à Casa dos Stuart. Após a Revolução Gloriosa de 1688 e o exílio da dinastia católica, a maçonaria associada a ela, a chamada "Maçonaria Jacobita", teria sido perseguida e forçada à clandestinidade. A sua influência, contudo, teria ressurgido de forma codificada na década de 1750 com a formação da Grande Loja dos Antients (Antigos) na Inglaterra. Liderados por Laurence Dermott e apoiados pelos Duques de Atholl, os Antients opunham-se ferozmente à Grande Loja dos Moderns (Modernos) de Londres, acusando-a de ter abandonado os antigos landmarks. Esta rivalidade, bem documentada, forneceu um contexto histórico real no qual a reivindicação de uma tradição escocesa mais pura e antiga era um potente instrumento de legitimidade e disputa.

A pesquisa histórica revisionista, contudo, oferece uma cronologia diferente e mais tardia para a estruturação formal da Ordem do Heredom como sistema de altos graus. Os registros mais antigos que a mencionam explicitamente são quatro livros de atas, datados a partir de 1750, que descrevem uma "Grande Loja Provincial" reunindo-se em Londres. A suposta "Grande Loja Mãe" em Edimburgo só é atestada como sendo reativada em 1763. Este dado sugere fortemente que a organização, tal como a conhecemos, foi formatada ou reformatada em meados do século XVIII, precisamente no auge da contenda entre Antients e Moderns. Esta época foi fértil em what o historiador Eric Hobsbawm denominou "invenção da tradição", processo no qual grupos criam ou reinterpretam rituais e linhagens para estabelecer continuidade com um passado útil para os propósitos do presente.

O termo "Heredom" próprio é um nó simbólico nesta construção. A interpretação tradicional, frequentemente citada por autores esotéricos como René Guénon, liga-o à palavra inglesa heirdom (herança), definindo-o como o legado espiritual do Templo. Outras etimologias propostas incluem combinações de grego e latim (hieros domos - casa sagrada) ou derivações do hebraico. A própria polissemia e imprecisão da origem do termo contribui para a sua aura de mistério e antiguidade, funcionando como um signo aberto que congrega diferentes camadas de significado projetadas pela tradição.

Em conclusão, a Ordem Real de Heredom de Kilwinning não pode ser compreendida apenas através da lente da verificação factual de suas origens medievais. Um entendimento mais profundo exige que a analisemos como um fenômeno cultural e político dinâmico. Ela encapsula o processo pelo qual uma instituição histórica real, a Loja de Kilwinning, serviu de âncora para uma elaborada narrativa de legitimação, forjada num contexto específico de disputa interna dentro da maçonaria e de conflito político dinástico. A sua história, portanto, é menos uma crônica linear e mais um palimpsesto, onde as camadas de significado acrescentadas no século XVIII são tão importantes quanto os alicerces medievais sobre os quais foram inscritas. O estudo do Heredom revela-se, assim, fundamental para compreender os mecanismos através dos quais a tradição é negociada, inventada e mobilizada na construção de identidades coletivas no seio da cultura maçônica.

Nota sobre Fontes: A análise apresentada sintetiza informações de narrativas tradicionais da ordem (como aquelas veiculadas em seus próprios comunicados e em obras de autores como René Guénon) com o trabalho de historiadores acadêmicos da maçonaria, particularmente a escola revisionista liderada por David Stevenson (*The Origins of Freemasonry: Scotland's Century, 1590-1710*). A interpretação do fenômeno à luz do conceito de "invenção da tradição" é uma aplicação da teoria seminal de Eric Hobsbawm e Terence Ranger.

Por Rui Samarcos Lora