O “Comitê de Ação Maçônica” e sua atuação durante o Regime de Vichy

05/01/2026

A resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial foi composta por uma complexa tapeçaria de grupos, muitos dos quais surgiram de redes sociais e filosóficas pré-existentes. Um elemento central desta rede clandestina foi o Comitê de Ação Maçônica (CAM) (em francês, Comité d'Action Maçonnique). Fundado em janeiro de 1941, seu propósito declarado era garantir a existência e a continuidade da Maçonaria, então proscrita pelo regime de Vichy e perseguida pelos ocupantes nazistas. Constituído inicialmente por figuras como Albert Kirchmeyer, Marc Rucart, Gustave Eychène, Edouard Soubret, Ambroise Peloquin e Louis Bonnard, o comitê funcionava como um núcleo de líderes, não como uma estrutura administrativa formal. Esta natureza flexível permitiu-lhe coordenar ações clandestinas, embora a adição de membros ao longo do tempo e a sua composição exata permaneçam difíceis de precisar para os historiadores.

A atuação do CAM ocorreu em paralelo e de forma distinta de outros grupos de resistência de origem maçônica que surgiram nos primeiros anos da ocupação. Entre estes, destacavam-se a LEF (Liberdade, Igualdade, Fraternidade), o Círculo e a Liga. Estes eram coletivos independentes, cada um com sua própria dinâmica e rede de contatos, que igualmente operavam na clandestinidade. A existência desses múltiplos grupos demonstra a resposta orgânica e fragmentada da comunidade maçônica à repressão, com diferentes iniciativas surgindo simultaneamente, sem um comando central único até um estágio mais avançado da guerra. Esta multiplicidade de atores seria crucial para a formação de uma identidade de resistência mais ampla no período pós-libertação.

O ponto de inflexão para o Comitê de Ação Maçônica ocorreu após uma onda de prisões em março de 1943. Sob a liderança do Coronel Eychène e de Ambroise Peloquin, o comitê foi reorganizado e passou a operar sob um novo nome: Patriam Recuperare. Esta reestruturação visava não apenas à sobrevivência, mas também a uma integração mais formal com a resistência nacional, estabelecendo uma ligação com o recém-criado Conselho Nacional da Resistência (CNR). O grupo Patriam Recuperare (Não confundir com o Movimento Patriam Recuperare), portanto, representou a evolução do núcleo inicial do CAM em uma organização de resistência mais estruturada e politicamente conectada, atuando de março de 1943 até a Libertação em 1944.

Após a Libertação, a necessidade de reconhecimento oficial pelas novas autoridades francesas forçou uma nova reconfiguração. Uma portaria de outubro de 1944 exigia que os grupos de resistência constituíssem um comitê diretivo formal para manterem seu estatuto legal e seu assento em organismos como a Assembleia Consultiva Provisória. O grupo Patriam Recuperare, ao constituir seu Comitê Diretivo, efetivamente fundiu sua identidade com a do antigo Comitê de Ação Maçônica. Este novo órgão, agora institucionalizado, começou então a promover uma narrativa que unificava toda a resistência maçônica sob a sua égide, um processo que culminou na fundação de uma associação formal em abril de 1945.

Foi neste contexto pós-guerra que o conceito de "Movimento Patriam Recuperare" emergiu como uma construção histórica e burocrática. Reconhecido oficialmente como parte da Resistência Interna Francesa, este "movimento" passou a englobar retrospectivamente todos os grupos de resistência maçônica anteriores e independentes, incluindo a LEF, o Círculo, a Liga e o próprio CAM inicial. Assim, o que começou como um comitê específico de ação, coexistindo com outros grupos autônomos, transformou-se no núcleo de uma identidade unificada. Essa reescrita da História, embora essencial para o reconhecimento coletivo e os benefícios legais dos ex-resistentes, inevitavelmente relativizou o papel individual de grupos pioneiros e de alguns de seus líderes originais, como Albert Kirchmeyer, cujo retorno tardio da deportação o colocou diante de um cenário institucional já consolidado sob o nome que seu próprio comitê ajudara a criar.


Para entender melhor:
O "Patriam Recuperare" (grupo maçônico) foi uma unidade operacional de resistência durante a guerra (1943-1944).

O "Movimento Patriam Recuperare" foi uma construção administrativa pós-guerra que reuniu sob um único nome toda a resistência maçônica desde 1940 para fins de reconhecimento oficial.


Por Luciano José Antunes Urpia

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Referências:

CHEVALLIER, Pierre. Histoire de la franc-maçonnerie française: La maçonnerie, église de la République (1877-1944). Paris: Fayard, 1975. 480 p. (Les grandes études historiques). ISBN 2-213-00162-6.

COMBES, André. La franc-maçonnerie sous l'occupation: persécution et résistance (1939-1945). Paris: Éditions du Rocher, 2001. 421 p. (Franc-maçonnerie). ISBN 978-2-268-07462-7.

HIVER-MESSECA, Yves. L'Europe sous l'acacia: histoire de la franc-maçonnerie européenne du XVIIIe siècle à nos jours. v. 3: XXe siècle. Paris: Éditions Dervy, 2015. 477 p. (L'univers maçonnique). ISBN 979-10-242-0135-1.

HIVER-MESSECA, Yves. Résistance: II. Le réseau Patriam Recuperare. In: SAUNIER, Éric (dir.). Encyclopédie de la franc-maçonnerie. Paris: Le Livre de Poche, 2002. p. 715-1716. (La Pochothèque). ISBN 978-2-253-13032-1.

Patriam Recuperare e Albert Kirchmeyer. Disponível em: https://www.patriam-recuperare.fr/Verites.V.htm. Acesso em: 1 jan. 2026.