Maçonaria francesa em alerta após resolução contra infiltração da Irmandade Muçulmana

01/02/2026

A recente decisão da Assembleia Nacional da França, que aprovou uma resolução demandando uma avaliação europeia sobre a atuação da Irmandade Muçulmana, acendeu um debate que ultrapassa o âmbito político e religioso, alcançando espaços simbólicos e iniciáticos. O voto parlamentar, realizado em janeiro de 2026 e fundamentado em um relatório do Ministério do Interior que mapeia uma rede extensa de associações, escolas e locais de culto, coloca em foco a capacidade de infiltração do movimento. Neste cenário, surge uma inquietação: instituições como a Maçonaria, com sua natureza reservada e tradição humanista, estariam imunes a essa dinâmica de influência? A questão ganha corpo a partir de episódios como o convite, em 2019, de uma Loja da Grande Loja Nacional da França ao imã Tareq Oubrou, figura pública ligada à União das Organizações Islâmicas da França (UOIF), herdeira histórica da Irmandade no país.

A trajetória do imã de Bordéus, Tareq Oubrou, é central nessa reflexão. Autodidata e defensor de uma "sharia minoritária" adaptada ao contexto laico francês, sua evolução pública, do rigorismo inicial a uma postura mais liberal e mesmo à condecoração com a Legião de Honra, é vista com nuances. Para a antropóloga Florence Bergeaud-Blackler, tal adaptação lexical pode ser uma tática dentro de um projeto teológico-polístico mais amplo, um "fraternismo" que busca influenciar a sociedade de forma cultural e normativa. O encontro promovido pela Loja Villard de Honnecourt, que recebeu Tareq Oubrou para um diálogo sobre "Islã, um Caminho Iniciático", é citado como exemplo emblemático. O evento, apresentado como um intercâmbio enriquecedor, também levanta a hipótese de ser uma porta de entrada simbólica para ideias que buscam novos espaços de difusão.

Embora não haja evidências públicas de uma infiltração maçônica concretizada, especialistas alertam que a própria estrutura das obediências, com sua diversidade, debates internos por vezes caóticos e a opacidade inerente a alguns ritos, pode criar vulnerabilidades teóricas. O episódio envolvendo Oubrou, ainda que aparentemente pontual, serve de alerta para a necessidade de uma vigilância interna renovada. A questão que se coloca às lojas maçônicas francesas é se sua tradicional abertura ao diálogo e seu humanismo confiante são suficientes para discernir e neutralizar possíveis instrumentalizações. O chamado é para que fortaleçam seus mecanismos de controle e contextualização histórica, assegurando que seus templos permaneçam efetivamente como guardiães dos valores republicanos, e não se tornem, mesmo que sem intenção, caixas de ressonância para outras formas de fraternalismo.

Fonte: C.A. DETONUR