Por que os Aprendizes sentam no lado escuro do Templo?

A posição do Aprendiz na Coluna do Norte constitui um dos elementos mais estáveis da topografia ritual da Loja e não pode ser explicada de forma satisfatória por meio das justificativas usuais, de tipo pedagógico ou moralizante. Estudos de história ritual anglo-americana e europeia indicam que a distribuição dos assentos no templo responde, antes de tudo, a uma lógica cosmológica e luminosa, em que cada quadrante da Loja corresponde a um regime simbólico específico de luz e sombra. Em diversos manuais ingleses e norte‑americanos, o Norte é explicitamente qualificado como região de "escuridão" ou "pobremente iluminada", em contraste com o Oriente, o Ocidente e o Sul, local onde estão as três luzes da Loja, lesser lights, e a circulação simbólica do Sol ao longo do dia ritual.
Nessa perspectiva, o lugar do Aprendiz no Norte não deriva primariamente de uma suposta relação de tutela com os Vigilantes nem de construções posteriores em torno da "coluna da força", mas da condição liminar que caracteriza o neófito. A literatura interpretativa de língua inglesa frequentemente descreve o candidato iniciado como someone "emerging from darkness into light", enfatizando que sua trajetória ritual supõe uma passagem gradual da ignorância profana para um estado progressivo de esclarecimento interior. Ao ser colocado no único lado estruturalmente privado de luz plena, o Aprendiz é situado, de maneira deliberada, no ponto de máxima distância em relação ao eixo solar do templo, de modo que a sua integração à comunidade simbólica se traduza também numa dinâmica espacial: a partir do Norte, ele é chamado a deslocar-se, ao longo do tempo e do estudo, em direção às zonas de maior luminosidade.
As fontes estrangeiras que tratam do chamado "Masonic North" convergem, assim, em dois aspectos decisivos. Em primeiro lugar, sublinham o carácter essencialmente simbólico e não disciplinar dessa posição: não se trata de sancionar uma inferioridade moral do Aprendiz, mas de inscrevê-lo num regime de experiência que tematiza a tensão entre luz e trevas como núcleo da pedagogia iniciática. Em segundo lugar, mostram que explicações correntes que vinculam o Norte à pedra bruta, à força muscular ou ao monopólio instrutivo dos Vigilantes são formulações recentes, muitas vezes desvinculadas dos documentos rituais mais antigos. Uma leitura criteriosa da tradição internacional sugere, portanto, que a presença dos Aprendizes na Coluna do Norte decorre, antes, de uma arquitetura simbólica de matriz astronómica e teológica do que de funções administrativas internas da Loja, preservando, no espaço, a memória de um percurso que começa na obscuridade e se orienta, metodicamente, para a Luz.
Por Rui Samarcos Lora
Fonte: The Builder. (1918, September). The three lesser lights. Masonic Service Association of North America. (1926, February). Lesser lights (Short Talk Bulletin, Vol. 4, No. 2).

