Série: Quatuor Coronati (Volume I de 1886) - "Sobre antigos costumes escocêses"

O artigo intitulado "On Some Old Scottish Customs", apresentado por F. Gould perante a *Lodge Quatuor Coronati* em 3 de junho de 1886, e subsequentemente debatido por seus eminentes estudiosos, constitui uma análise crítica fundacional sobre as origens dos Altos Graus maçônicos e os costumes autênticos da Maçonaria escocesa primitiva. A dissertação e o debate foram publicados no primeiro volume daquela Loja de pesquisa de 1886. O trabalho problematiza a atribuição quase sistemática de uma origem escocesa aos graus maçônicos elaborados no continente europeu, especialmente na França a partir da década de 1740. Gould argumenta que esta associação foi uma construção posterior, impulsionada pelo prestígio romântico da Escócia e pelo famoso discurso do Cavaleiro Ramsay em 1737, e não reflete a realidade histórica das práticas maçônicas na própria Escócia.
A investigação documental apresentada revela que a Maçonaria especulativa escocesa dos séculos XVII e início do XVIII era notavelmente simples em sua estrutura ritualística. Os registros das antigas Lojas operativas, como os Estatutos de Schaw (1598-99) e os livros de atas de Loja como as de Edimburgo, Aberdeen e Kilwinning, demonstram que o sistema de graus triadico, tal como consolidado mais tarde, não era praticado. Inicialmente, o cerne da admissão parecia residir na comunicação da "Palavra do Maçom" e na leitura das "Antigas Obrigações". A referência mais antiga ao que se tornaria o terceiro grau em território escocês só aparece em 1735, e sua adoção generalizada foi um processo lento ao longo do século XVIII. A tese central do artigo é, portanto, a de desmistificar a noção de uma Escócia como berço de uma multiplicidade de graus sublimes, destacando em vez disso o caráter operativo e despojado de suas Lojas originais.
O trabalho descreve minuciosamente os costumes que caracterizavam essas corporações, muitos dos quais sobreviveram como resquícios de uma era anterior às Grandes Lojas. Entre eles destacavam-se a exigência de "ensaios" ou peças de trabalho prático para a progressão de aprendizes e companheiros operativos, a figura do "Intender" ou instrutor designado para cada neófito, e a distinção formal e hierárquica entre membros "operativos" (ou domáticos) e "não-operativos" (ou geomáticos). O artigo também menciona práticas como o "fencing of the Lodge", uma solene abertura judicial, a iniciação honorária de clérigos, e os problemas decorrentes das irregularidades e da concessão abusiva de dispensações para criação de Lojas filiais, que apenas foram coibidas pela Grande Loja da Escócia muito tardiamente.
O debate que se seguiu à leitura do artigo, também transcrito na ata, enriquece a discussão com perspectivas complementares. O Irmão Hughan corroborou a visão da simplicidade ritualística primitiva, enquanto o Irmão Simpson ponderou se, na ausência do terceiro grau, essas associações poderiam ser consideradas Maçonaria Especulativa no sentido moderno, assemelhando-se mais a guildas de ofício. O Irmão Speth ofereceu uma valiosa perspectiva comparativa, traçando paralelos entre os costumes escoceses e os das fraternidades de ofício alemãs, particularmente no que diz respeito às figuras dos instrutores e aos exames. Por fim, o Irmão Woodford, em sua síntese, reconheceu o peso das evidências documentais apresentadas, mas advogou por cautela ao se descartar completamente a possibilidade de desenvolvimentos ritualísticos paralelos ou não registrados, concluindo que a investigação ilustrava de forma exemplar o método e o valor da pesquisa maçônica rigorosa. Em suma, o conjunto do artigo e do debate, conforme preservado no Volume I serve como um marco fundador da historiografia maçônica crítica, baseando conclusões em documentação primária e estabelecendo um padrão de erudição que caracterizaria os trabalhos dessa sociedade de pesquisadores.
Por Rui Samarcos Lora

