Maçonaria e Monarquia no Brasil

03/01/2026
O Palácio Maçônico do Lavradio, Rio de Janeiro.
O Palácio Maçônico do Lavradio, Rio de Janeiro.

A alegação de que a Maçonaria, como instituição monolítica, derrubou a monarquia brasileira é uma simplificação que obscurece uma realidade histórica muito mais complexa e reveladora. A relação entre a Maçonaria e o Estado Imperial foi marcada por uma série de paradoxos, alianças, conflitos internos e profundas transformações sociais. Para compreender seu papel, é necessário abandonar a visão de uma conspiração unificada e examinar como a fraternidade funcionou como um microcosmo das elites brasileiras, abrigando tanto os principais arquitetos do Império quanto seus futuros derrubadores. Esta análise demonstra que a identidade maçônica, por si só, não determinava a lealdade política. Em vez disso, as Lojas foram arenas onde os grandes debates nacionais, independência, abolição, republicanismo e secularização, foram travados, frequentemente colocando maçons uns contra os outros. O desfecho de 1889 foi menos um golpe maçônico e mais o triunfo final de uma facção ideológica específica dentro da ordem sobre outra, após décadas de coabitação tensa.

A Fundação do Império e o Paradoxo Original

A Maçonaria esteve intimamente envolvida no processo de Independência do Brasil, mas seu objetivo imediato não era uma República. Em 1822, a Loja "Comércio e Artes" no Rio de Janeiro serviu como um centro de articulação política, reunindo figuras como José Bonifácio de Andrada e Silva e Joaquim Gonçalves Ledo. O projeto que emergiu dessas reuniões foi uma transação política: a ruptura com Portugal, mas a manutenção da unidade territorial sob a coroa de D. Pedro I, evitando os perigos do republicanismo e da fragmentação. Em um ato simbólico máximo, o próprio Príncipe Regente foi iniciado na Maçonaria, adotando o nome simbólico de "Guatimozim", e em outubro de 1822 foi eleito Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil. Portanto, é preciso cautela ao afirmar antagonismo entre Maçonaria e Monarquia. Temeroso do poder e das ideias mais radicais de Gonçalves Ledo, o próprio D. Pedro I, meses depois, ordenou a suspensão das atividades do Grande Oriente, iniciando um período de clandestinidade para muitas Lojas. Este episódio inicial já demonstrava que o conflito era mais político-ideológico do que uma luta entre a Maçonaria e a monarquia. É preciso reconhecer que a Maçonaria não é política nem partidária, mas ela pode reunir pessoas que tenham objetivos comuns. 

O Segundo Reinado: A Maçonaria no Coração do Estado Imperial

Com a abdicação de D. Pedro I e a subsequente reorganização da Maçonaria a partir de 1831, a Ordem se estabeleceu firmemente como uma das principais redes de sociabilidade das elites políticas do Segundo Reinado. A ideia de uma Maçonaria uniformemente republicana nesse período é completamente anacrônica. Pelo contrário, a instituição estava profundamente integrada ao establishment imperial. Figuras fundamentais para a consolidação e administração do Império eram maçons de alto grau. O Duque de Caxias, patrono do Exército Brasileiro e responsável por pacificar várias rebeliões, foi Grão-Mestre de Honra do Grande Oriente. O Visconde do Rio Branco, autor da Lei do Ventre Livre (1871) e Primeiro-Ministro, também era uma figura central na Maçonaria. Outros nobres e estadistas, como o Marquês do Paraná e o Visconde do Uruguai, eram membros ativos. Durante décadas, as Lojas funcionaram como espaços onde liberais e conservadores, todos leais à monarquia constitucional de D. Pedro II, conviviam e discutiam os rumos do país.

O ponto de ruptura começou a se formar a partir da década de 1870, com a convergência de três grandes questões: o abolicionismo, o republicanismo e a Questão Religiosa. Esta última, uma crise entre a Igreja Católica e o Estado, teve a Maçonaria como epicentro. Bispos ultramontanos, seguindo determinações do Papa Pio IX, ordenaram que irmandades católicas expulsassem maçons de seus quadros. Dois bispos foram presos por desobediência ao governo imperial, que exercia o padroado sobre a Igreja. A crise teve um efeito duplamente corrosivo para a monarquia: por um lado, desgastou a imagem do Imperador, visto como fraco por alguns e autoritário por outros; por outro, consolidou uma aliança entre setores maçônicos e ideais liberais e anticlericais, identificando a monarquia como obstáculo à modernização e à secularização da sociedade.

Fragmentação e a Ascensão da Corrente Republicana

A partir dos anos 1870, uma nova geração de maçons, menos ligada à aristocracia tradicional e mais influenciada pelo positivismo e pelo liberalismo radical, começou a ganhar força dentro das Lojas. Líderes como Quintino Bocaiúva, Campos Sales e Saldanha Marinho passaram a defender abertamente, dentro do ambiente maçônico, a dupla causa da abolição e da república. O "Grande Oriente do Vale dos Beneditinos", liderado por Saldanha Marinho, tornou-se um importante polo de propaganda republicana. É crucial entender que esta era uma facção dentro de uma Maçonaria ainda majoritariamente monarquista ou neutra. A proliferação de Lojas em províncias com forte sentimento republicano, como São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, amplificou essa voz.

A abolição da escravatura em 1888 foi o golpe final na base de sustentação política da monarquia. No ano seguinte, a conjuntura política tornou-se explosiva. Em 10 de novembro de 1889, uma reunião decisiva ocorreu na casa do professor e maçom Benjamin Constant. Participaram outros maçons republicanos, como Quintino Bocaiúva e Francisco Glicério. Eles decidiram pela derrubada do Império e encarregaram Benjamin Constant de convencer o marechal Deodoro da Fonseca, também maçom, a liderar o movimento militar. Deodoro, relutante e amigo do Imperador, acabou por aceitar. Após a proclamação da República em 15 de novembro, o primeiro ministério foi integralmente composto por maçons, incluindo Rui Barbosa e Campos Sales. O Grande Oriente do Brasil enviou um ofício formal de adesão ao novo governo, selando institucionalmente o apoio a posteriori ao fato consumado por uma de suas correntes internas.

Conclusão: Maçonaria, Monarquia e Republicanismo em Perspectiva Comparada

A queda da monarquia brasileira não foi uma operação maçônica, mas o desfecho de um longo processo histórico no qual uma facção republicana dentro da Maçonaria, aliada a setores do Exército e da elite civil urbana, tornou-se hegemônica em um momento de profunda crise do regime. A Maçonaria, como instituição, não tinha uma posição oficial única; ela refletia as divisões da sociedade. O que a história brasileira demonstra é que a Maçonaria pode servir a diferentes projetos políticos dependendo do contexto nacional. O caso brasileiro contrasta fortemente com o britânico, onde a Maçonaria, desde sua fundação em 1717, forjou uma ligação indissolúvel com a monarquia e o establishment. Na Grã-Bretanha, a ordem foi um instrumento de integração social entre a aristocracia fundiária e a burguesia ascendente, servindo como um pilar de estabilidade contra ideias revolucionárias. A própria família real tem uma longa tradição de envolvimento, com príncipes servindo como Grãos-Mestres. Já na França, a Maçonaria desenvolveu um caráter mais pluralista e frequentemente associado ao republicanismo, ao anticlericalismo e aos ideais laicos, especialmente após a Revolução Francesa, contexto que influenciou profundamente as lojas brasileiras. Portanto, perguntar se a Maçonaria é inerentemente republicana ou monarquista é um erro. Ela é, antes de tudo, um espelho das estruturas de poder e dos conflitos ideológicos da sociedade na qual está inserida. No Brasil do século XIX, ela foi simultaneamente a casa do Imperador fundador e de seus derrubadores, um testemunho eloquente de sua natureza complexa e de seu papel como arena onde o futuro da nação foi disputado.

Por Rui Samarcos Lora