Cabalá: a sabedoria oculta e seus caminhos iniciáticos

11/12/2025

A Cabalá, um dos sistemas mais complexos e misteriosos do pensamento judaico, representa uma das principais tradições esotéricas do Ocidente. Seu termo deriva do hebraico qabbalah (קַבָּלָה), que significa "recepção" ou "tradição", indicando o caráter iniciático e transmitido oralmente de seus ensinamentos. Embora suas raízes remontem aos primeiros movimentos místicos judaicos, como o Merkavá (visão da carruagem divina) dos séculos I a VI, a Cabalá consolidou-se como corpo doutrinário entre os séculos XII e XIII, especialmente nas comunidades judaicas da Provença, Languedoc e Catalunha (Scholem, 1965; Idel, 1988).

Segundo Scholem (1995), o texto fundamental da tradição cabalística, o Zohar ("Livro do Esplendor"), escrito por volta do século XIII e atribuído a Moisés de León, apresenta uma cosmogonia simbólica na qual o universo e o homem são manifestações do divino. Essa revelação mística propõe que a Criação decorre de um processo de emanações sucessivas — as Sefirot — que revelam aspectos do Ein Sof, o Infinito incognoscível de Deus. O estudo cabalístico, portanto, busca compreender essas emanações e os mecanismos espirituais que conectam o cosmos ao Criador, baseando-se na hermenêutica dos textos sagrados judaicos (TaNaKh, Talmude e Midrashim).

A diáspora judaica após a expulsão da Espanha em 1492 contribuiu decisivamente para a difusão da Cabalá na Europa e no Oriente Médio, levando-a a influenciar tradições místicas cristãs, herméticas e filosóficas do Renascimento (Dan, 1998). Autores como Pico della Mirandola e Johannes Reuchlin incorporaram noções cabalísticas ao pensamento cristão, reinterpretando-as sob a ótica da teologia neoplatônica. Essa interpenetração entre mística judaica e filosofia ocidental consolidou a Cabalá como uma linguagem simbólica transcultural do sagrado (Faivre, 2010).

No contexto maçônico, há uma afinidade profunda entre o simbolismo cabalístico e os princípios iniciáticos da Ordem. Tanto a Cabalá quanto a Maçonaria compartilham uma visão hierárquica e simbólica do universo, estruturada por graus de conhecimento e aperfeiçoamento moral. A escada de Jacó, o Templo de Salomão e as colunas da Sabedoria, Força e Beleza, por exemplo, remetem diretamente a correspondências cabalísticas entre as Sefirot e os processos de ascensão espiritual (MacNulty, 2006; Hall, 2003).

Além disso, a Cabalá fornece um modelo hermenêutico que dialoga com a leitura simbólica maçônica dos seus rituais e alegorias. O método exegético conhecido como PaRDeS (um acrônimo dos níveis de interpretação Peshat, Remez, Derash e Sod) estabelece quatro dimensões de leitura dos textos sagrados: o literal, o alegórico, o moral e o místico. Essas camadas interpretativas encontram correspondência no processo maçônico de iniciação, que conduz o iniciado da compreensão literal à sabedoria esotérica, em um percurso progressivo de autotransformação (Idel, 1988; Kaplan, 1997).

Assim, o estudo cabalístico transcende o mero exercício intelectual e configura um caminho espiritual e ético de retorno à unidade divina (Tikkun Olam — "reparação do mundo"). Em um contexto contemporâneo dominado pelo materialismo e pela fragmentação simbólica, a Cabalá reafirma valores universais de integração, harmonia e transcendência. Sua presença nas tradições iniciáticas modernas, como a Maçonaria, demonstra a permanência de um ideal de sabedoria que busca unir o conhecimento racional à experiência interior.

A Cabalá, portanto, oferece ao pensamento esotérico ocidental uma estrutura de compreensão do sagrado que combina razão, simbolismo e espiritualidade. Em diálogo com a Maçonaria, ela expressa a continuidade de uma linguagem metafísica comum — uma "ciência da luz", que visa à elevação da consciência humana e à construção de um cosmos interior regido pela sabedoria e pela justiça divinas.

Referências

Dan, J. (1998). The early Kabbalah. New York: Paulist Press.

Faivre, A. (2010). Access to Western esotericism. Albany: State University of New York Press.

Hall, M. P. (2003). The secret teachings of all ages. New York: Dover Publications.

Idel, M. (1988). Kabbalah: New perspectives. New Haven: Yale University Press.

Kaplan, A. (1997). Sefer Yetzirah: The book of creation — In theory and practice. York Beach: Weiser Books.

MacNulty, W. K. (2006). Freemasonry: A journey through ritual and symbol. New York: Thames & Hudson.

Scholem, G. (1965). Major trends in Jewish mysticism (3rd ed.). New York: Schocken Books.

Scholem, G. (1995). Kabbalah. Jerusalem: Keter Publishing.