A Maçonaria na Venezuela: uma trajetória de poder, adaptação e perseguição

A trajetória da Maçonaria na Venezuela é um microcosmo da própria história nacional. Mais do que uma sociedade discreta, foi um espaço de sociabilidade, elaboração ideológica e, em diversos momentos, um ator político de primeira ordem. Desde os heróis da Independência até os conflitos do século XXI, a Ordem viveu ciclos de grande influência, seguidos por períodos de obscuridade forçada ou acomodação. Este artigo traça essa trajetória em dois atos principais: primeiro, analisa sua consolidação institucional no século XIX e sua complexa estrutura; segundo, e com base em relatos e documentos contemporâneos, examina sua relação ambígua com o poder no século XX e a perseguição aberta sofrida durante o regime de Nicolás Maduro, um capítulo que revela uma fratura profunda entre a instituição internacional e sua obediência venezuelana.
1. Gênese e consolidação no século XIX: a construção de uma Instituição
A organização formal da Maçonaria venezuelana surge no calor da construção republicana. Após a Guerra de Independência, a partir de 1823, Lojas em Barcelona, Cumaná e Valencia buscam legitimidade ao solicitar cartas patentes à Loja Amistad de Maryland, EUA. No entanto, sua unidade é frágil, abalada pela crise política da Cosiata* e pelo decreto de proscrição de sociedades secretas assinado pelo próprio Libertador Simón Bolívar em 1828.
A reorganização efetiva ocorre após a "Revolução de 1853", culminando na Constituição Maçônica de 1856. Este documento seminal, promulgado pelo Grão-Mestre Casimiro Hernández, define a Maçonaria como uma "associação civil da moral, da virtude e da proteção mútua", explicitamente apartidária e não religiosa, e estabelece o Gran Oriente Nacional como a suprema autoridade regular no território. A estrutura era notavelmente complexa e hierárquica, refletindo uma visão de sociedade ordenada:
- A Ordem Simbólica: o alicerce, compreendendo as Lojas Azuis e os três primeiros graus (Aprendiz, Companheiro, Mestre). Era governada pela Gran Logia, um parlamento formado por deputados eleitos por cada oficina.
- A Ordem Perfeita: abrangia os graus capitulares (4º ao 30º), agrupados em Capítulos sob a égide do Soberano Capítulo.
- A Ordem Filosófica: Integrada pelos altos graus (31º ao 33º), administrada pelo Soberano Grande Consistório.
- O Supremo Conselho: Funcionava como tribunal máximo de apelação, composto por detentores do 33º grau.
Dados quantitativos da época revelam uma instituição em expansão. Entre 1855 e 1859, documentam-se nove Lojas com 466 membros. Em 1867, o número salta para 28 lojas e 1.923 irmãos, uma rede significativa considerando a população da época. Contudo, desde cedo, a unidade foi um desafio. Um cisma em 1851 dividiu a Ordem Simbólica entre uma facção leal à Grande Loja e outra subordinada ao Supremo Conselho, uma cisão que antecipava a dificuldade da instituição em manter-se unida frente a pressões políticas externas.
2. O Século XX: entre a neutralidade e a acomodação.
Ao longo do século XX, a Maçonaria institucional, representada pela Grande Loja da República da Venezuela, adotou uma postura recorrente diante de regimes autoritários: a acomodação tática para garantir sua sobrevivência. Durante a longa ditadura de Juan Vicente Gómez, a liderança maçônica buscou e obteve um entendimento. O diálogo entre o Grão-Mestre Jacobo Bendhan e o general Juan Vicente Gómez, onde este último assegurou que a Ordem não seria molestada enquanto pregasse "amor ao trabalho e respeito à pátria", simboliza essa relação de coexistência prudente.
Este padrão repetiu-se durante a ditadura de Marcos Pérez Jiménez. A Grande Loja, mais uma vez, optou por uma neutralidade que, na prática, a alienou das forças democráticas. Era um período em que os maçons se dividiam entre "democratas na resistência, apoiadores do governo... e os indiferentes". Essa postura teve um custo histórico: com a redemocratização em 1958, a instituição, vista com desconfiança por seu passado acomodatício, foi marginalizada do novo jogo político, perdendo a influência que detivera no século XIX.
A ascensão do chavismo no final do século XX reeditou o dilema. Inicialmente, houve uma reaproximação. O ápice deste realinhamento ocorreu em 2013, quando a Grande Loja, sob o Grão-Mestre José Bericotte, decretou três dias de luto oficial pela morte de Hugo Chávez, lamentando o falecimento que "afetava profundamente o sentimento nacional". Esta legitimação institucional preparou o terreno para o que viria a seguir.
3. O regime de Maduro e a perseguição aberta: a Grande Loja sob tensão
A consolidação do regime de Nicolás Maduro e a crise política multidimensional que se seguiu levaram o relacionamento a um ponto de ruptura traumático. O episódio crítico foi a rebelião liderada em junho de 2017 pelo maçom Óscar Pérez, membro da Loja Santiago Mariño nº 208. A resposta da Grande Loja foi imediata e devastadora. Em vez de defender o princípio da fraternidade ou o direito à defesa, a cúpula, liderada pelo Grão-Mestre Coronel Ubaldo Jiménez Silva (um oficial da Guarda Nacional ligado ao regime), moveu-se para expulsá-lo.
Horas após a ação de Pérez, sua Loja foi convocada para um processo. Circulou um documento (atribuído a Jiménez Silva) acusando-o de "traição à Pátria". Posteriormente, em janeiro de 2018, após o assassinato de Óscar Pérez em uma operação policial transmitida ao vivo, a Grande Loja emitiu o Comunicado Oficial Nº 01. Este texto, um marco de submissão institucional, instruía todas as Lojas sob sua jurisdição a "cooperar" com as investigações da DGCIM (Direção Geral de Contrainteligência Militar), SEBIN (Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional) e FAES (Forças de Ações Especiais), os próprios corpos de segurança acusados da execução, aconselhando os irmãos a "dizer a verdade sobre os assuntos discutidos em nossas reuniões".
O contraste com a reação da Maçonaria internacional foi abismal. Grandes Lojas por todo o continente (Equador, Brasil, Chile, Peru, Espanha, entre outras) e a Confederação Maçônica Interamericana emitiram declarações vigorosas condenando o regime de Maduro pelo assassinato de dois irmãos. A Grande Loja da Venezuela permaneceu isolada em seu silêncio cúmplice.
A perseguição não terminou com Pérez. Seguiu-se uma caça às bruxas dentro da Ordem:
- Prisões e intimidações: maçons como Ramón Delgado, Jameson Jiménez e Yhonny Calderón foram detidos e processados, muitos sob acusações de rebelião.
- Desaparecimentos forçados: O comissário do SEBIN, Wilmer Muñoz, e o tenente-coronel Juan Antonio Hurtado, ambos maçons, desapareceram. Uma investigação interna conduzida pelo detetive maçom Endry Méndez, a pedido da própria Secretaria da Grande Loja, sugeriu uma ligação com seus contatos com Óscar Pérez. Méndez, sem proteção da instituição, foi forçado ao exílio.
- Exílio e asilo político: Perseguidos, maçons como Ángel Fajardo e William Jiménez (este, testemunha clave nas autópsias de Pérez) tiveram que fugir do país, obtendo asilo político na França e nos Países Baixos, respectivamente. Seus casos, fundamentados na perseguição por filiação maçônica, foram aceites por tribunais internacionais, constituindo um precedente jurídico significativo e uma condenação tácita do regime venezuelano.
A fratura de uma tradição.A história da Maçonaria venezuelana é a de uma instituição que, nascendo para ser um pilar da república, viu-se repetidamente forçada a negociar sua sobrevivência com o poder de plantão. No século XIX, construiu uma estrutura robusta e expandiu sua rede, ainda que dividida por cisões. No século XX, sua estratégia de acomodação com ditaduras, visando a preservação institucional, resultou em sua irrelevância política durante a democracia e, posteriormente, numa aliança tóxica com o autoritarismo chavista.
O regime de Nicolás Maduro, no entanto, apresentou um desafio qualitativamente diferente. A perseguição aberta, os assassinatos e desaparecimentos de maçons, e a colaboração ativa da cúpula da Grande Loja com os aparelhos repressivos do Estado, representam uma fratura histórica. Criou-se um abismo entre a base da fraternidade, perseguida, exilada ou silenciada, e uma liderança vista como infiltrada e cooptada. Este capítulo não apenas mancha o legado da Ordem no país, mas a coloca, em sua encarnação oficial, como parte do aparato de controle de um regime acusado de crimes contra a humanidade. A Maçonaria venezuelana, outrora forjadora de libertadores, enfrenta agora o desafio de libertar a si mesma, buscando no seu próprio passado os ideais de liberdade e fraternidade que parecem ter sido abandonados por sua cúpula em um pacto fatal com o autoritarismo.
Por Luciano José Antunes Urpia
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Glossário:
"La Cosiata" (também conhecida como "La Revolución de los Morrocoyes") foi um movimento político-militar separatista ocorrido na Venezuela em 1826, liderado pelo general José Antonio Páez. Foi um evento crucial que marcou o início da dissolução da Gran Colômbia (a república unida da Venezuela, Nova Granada e Equador, criada por Simón Bolívar).
Referências:
Referências:MAC LIMAN, Adrian. La Masonería en el mundo – Venezuela (3). Madrid: Centro Ibérico de Estudios Masónicos (CIEM), Archivo CIEM – Documentación – países, 2015.
ORIA, Esteban. Masonería en la Venezuela de Maduro: persecución, arrestos, desapariciones y ajusticiamientos. In: https://www.elnacional.com/.
REVERÓN GARCÍA, Eloy E. Masonería desnuda (los masones ante la historia). Caracas: Instituto Venezolano de Estudios Masónicos (IVEM), 1994. p. 25-40.

