A inteligência artificial está a deixar a Maçonaria mais superficial?

Com a chamada inteligência artificial, a Maçonaria talvez esteja prestes a viver uma nova inundação de ignorância. Textos, artigos, efemérides, pesquisas, estudos e livros surgem em avalanche, redigidos por modelos que escrevem com elegância sintática, mas deixam sinais perceptíveis de que foram orquestrados por algoritmos. Falta profundidade, falta fonte, falta disciplina historiográfica. Repete-se o que ocorreu no Brasil em décadas recentes, quando se produzia muito sem bibliografia mínima que sustentasse os "achados" ou os argumentos mais estapafúrdios. O resultado é uma maquilhagem do velho achismo maçônico: antes um irmão empolgado escrevia um livreto artesanal com suas próprias impressões, muitas vezes sem a verdade necessária para não confundir os que recém chegam ávidos de perguntas à Ordem; hoje, em poucos segundos, surgem dezenas de páginas "eruditas" que, sob um verniz de estilo, reciclam mitos, teorias conspiratórias e generalidades superficiais. O problema agrava-se quando entidades, lojas e supostos pesquisadores publicam esse material como se fosse reflexão séria, confundindo forma polida com verdade e reproduzindo a cultura maçônica mais preguiçosa, a que prefere um texto bonito a uma ideia bem fundada.
Essa proliferação de conteúdo sem lastro revela menos a força da inteligência artificial e mais a fraqueza da inteligência humana que a consome sem exame. É como se se perdesse o lado criativo e se terceirizasse a capacidade de esforço, de verdadeira pesquisa, aquela última chama da vela maçônica que muitos dizem já viver de glórias do passado. Grande parte do material produzido sobre Maçonaria por meios automáticos é ampla, mas rasa: fala de tudo e não aprofunda nada, cita nomes, graus, ritos e datas sem indicar arquivos, autores, edições críticas, nem distinguir lenda de documento. A máquina replica o padrão mental de quem a alimenta: se a entrada é feita de frases soltas, mitologias internas e "verdades" repetidas em sessões de instrução sem leitura séria, a saída será um discurso embalado com aparente sofisticação linguística, mas epistemologicamente vazio. A capacidade de produzir milhares de páginas de lixo elegante encontra um público que já não lê com atenção e descarta por saber que é mais do mesmo, retroalimentando um círculo de resíduos intelectuais sem reciclagem. O risco é evidente: uma ordem que se pretende escola de aperfeiçoamento intelectual e moral pode transformar-se numa máquina de recirculação de mitos, agora adornados com o selo sedutor da tecnologia.
No entanto, o problema não está na inteligência artificial em si, e sim no uso que a Maçonaria faz dela ou se recusa a fazer de modo responsável. A mesma ferramenta que gera textos superficiais pode ser usada para localizar bibliografia séria, comparar versões de documentos, auxiliar na organização de estudos e ajudar irmãos a superar barreiras linguísticas para ler autores que nunca chegariam traduzidos. A questão é se as Lojas e as múltiplas instituições que circundam a Ordem estarão dispostas a exigir fontes, a desconfiar do texto perfeito demais, a perguntar de onde vem isso? antes de aplaudir. Se a Maçonaria não recuperar o hábito da leitura crítica, da verificação documental e do estudo paciente, a inteligência artificial apenas acelerará um processo já em curso, o de uma instituição que fala muito de Luz, mas se contenta com reflexos digitais. Se, ao contrário, for tomada como instrumento e não como oráculo, poderá tornar-se aliada para mapear mentiras, expor mitos falsos e reabrir o caminho para aquilo que sempre distinguiu o verdadeiro trabalho maçônico: a coragem de estudar, duvidar e pensar.
A questão que resta é simples e incômoda: vamos repetir os velhos achismos com roupagem tecnológica ou teremos a honestidade de usar a nova ferramenta para nos tornarmos, finalmente, mais responsáveis pelo que dizemos em nome da Ordem?
Por Rui Samarcos Lora

