A hora das Lojas secretas: com a morte do Aiatolá, Maçonaria ressurge das sombras no Irã.

O míssil ainda nem havia encontrado seu alvo no sábado, e Teerã já fervilhava com uma pergunta que poucos ousavam fazer em voz alta: e agora, quem vai mandar? Com a morte do aiatolá Ali Khamenei em um ataque conjunto dos EUA e Israel, o regime desabou em cima de um conselho interino frágil, mas foi nos subterrâneos da política iraniana que o verdadeiro terremoto começou. Enquanto milhões vão às ruas sem saber se choram ou celebram, uma outra história emerge das sombras: a história das sociedades secretas que, por mais de dois séculos, teceram os fios do poder quando o poder oficial vacilava. E a pergunta que circula agora nos círculos mais informados é: será que as Lojas maçônicas, caladas desde a revolução de 79, estão prestes a reabrir suas portas?
O silêncio ensurdecedor vindo dos clérigos nos últimos dias contrasta com a agitação que tomou conta de setores estratégicos do país. Afinal, o Irã já viveu isso antes. No século XIX, quando o Império Persa se via encurralado entre a influência russa e britânica, foi numa sociedade secreta chamada faramushkhana, a "casa do esquecimento", que príncipes, diplomatas e até clérigos descontentes começaram a desenhar um outro futuro para o país. Fundada por Mirza Malkum Khan em 1858, aquela loja não era apenas um clube de discussão: era o embrião das ideias reformistas que explodiriam décadas depois na Revolução Constitucional. O historiador Hamid Algar, que estudou a fundo esse período, mostra como a maçonaria serviu de disfarce perfeito para a oposição política numa terra onde questionar o governante sempre foi jogo perigoso. Hoje, com o líder supremo morto e o regime cambaleando, as condições para um novo surto de organização clandestina parecem mais maduras do que nunca.
Nos corredores do poder em Teerã, ninguém fala abertamente, mas os sinais estão por toda parte. Dias antes do ataque, um jornal local já alertava que grupos ligados à maçonaria continuavam ativos nos bastidores da indústria do petróleo, prontos para ressurgir na primeira brecha. E que brecha maior do que essa? Enquanto os aiatolás restantes tentam segurar as pontas, diplomatas ocidentais começam a articular o que chamam de "transição ordenada", um termo que, na prática, significa encontrar interlocutores confiáveis dentro do país. Historicamente, a maçonaria foi exatamente isso: a ponte entre as elites iranianas e o Ocidente, o clube secreto onde se negociavam contratos e alianças longe dos olhos da multidão. Agora, com o regime ferido e a sucessão incerta, a pergunta que fica no ar não é se as lojas vão reabrir, mas sim quem serão os mestres que ocuparão suas cadeiras quando a poeira baixar.

