A História da Maçonaria na Inglaterra

06/11/2025

A história da maçonaria na Inglaterra é uma narrativa complexa que atravessa séculos, evoluindo de guildas medievais de pedreiros para uma das sociedades fraternais mais influentes do mundo. Esta análise académica traça esse percurso, focando a sua génese, institucionalização, conflitos internos e papel contemporâneo.

🧱 Origens: Da Maçonaria Operativa à Especulativa

As raízes da maçonaria inglesa estão intrinsecamente ligadas aos pedreiros operativos (ou "maçons") da Idade Média, construtores de catedrais e castelos que organizavam em guildas e lojas para proteger os segredos do seu ofício e assegurar o bem-estar dos membros. O termo "freemason" referia-se originalmente ao trabalhador qualificado que esculpia pedra "livre" (freestone), mais macia e apropriada para trabalho ornamental.

A transição crucial para a maçonaria especulativa — que usava os símbolos e rituais do ofício como alegorias para o desenvolvimento moral e intelectual — começou no século XVII. Lojas na Escócia e, mais tarde, em Inglaterra, começaram a aceitar membros que não eram pedreiros de profissão, mas sim "cavaleiros e homens de letras". A admissão de Elias Ashmole numa loja em Warrington, em 1646, é o primeiro registo conhecido da iniciação de um maçom especulativo em Inglaterra.

⚖️ A Fundação da Primeira Grande Loja (1717) e as Constituições

O ponto de viragem institucional ocorreu a 24 de junho de 1717 (dia de São João Batista). Quatro lojas londrinas, que já se reuniam em tavernas como a Goose and Gridiron, congregaram-se e formaram a Primeira Grande Loja de Inglaterra (também conhecida como a Grande Loja de Londres e Westminster). Este foi o primeiro órgão regulador maçónico do mundo, elegeu Anthony Sayer como seu primeiro Grão-Mestre e marcou o início formal da maçonaria especulativa moderna.

Em 1723, a Grande Loja publicou a obra fundamental "As Constituições dos Maçons Livres", compilada pelo Reverendo James Anderson. Este documento, que incluía uma história lendária da arte, os "Antigos Deveres" e as regras de governo, padronizou a prática maçónica e difundiu os seus princípios iluministas de tolerância, moralidade e fraternidade. Tornou-se tão influente que foi reimpresso em 1734 por Benjamin Franklin na Filadélfia.

⚔️ O Grande Cisma: "Modernos" versus "Antigos" (1751-1813)

O rápido crescimento e algumas alterações ritualísticas introduzidas pela Primeira Grande Loja geraram descontentamento. Em 1751, um grupo de lojas maioritariamente compostas por imigrantes irlandeses, que consideravam as suas práticas mais puras e antigas, formou uma Grande Loja rival: a "Grande Loja dos Maçons Antigos".

Os "Modernos"

: A Grande Loja original de 1717, acusada de se ter afastado dos "landmarks" (marcos tradicionais) da Ordem.

Os "Antigos"

: A nova Grande Loja de 1751, liderada pelo influente

Laurence Dermott

, autor da constituição rival

Ahiman Rezon

.

Este cisma durou 63 anos, durante os quais as duas organizações competiram, não se reconheceram mutuamente e expandiram a influência maçónica para as colónias britânicas e além.

🤝 A União e o Nascimento da UGLE (1813)

Após anos de negociações, as duas Grandes Lojas reconciliaram-se em 27 de dezembro de 1813, unindo-se para formar a Grande Loja Unida de Inglaterra (UGLE). O evento foi supervisionado pelos irmãos reais, os Duques de Sussex (dos Modernos) e de Kent (dos Antigos), ambos filhos do Rei Jorge III. O Duque de Sussex tornou-se o primeiro Grão-Mestre da UGLE.

A união levou à padronização do ritual e das práticas, sintetizando elementos de ambas as tradições e estabelecendo a estrutura de governo que perdura até hoje.

🏛️ A Maçonaria Inglesa no Século XX e na Atualidade

O século XX trouxe desafios e adaptações. O Freemasons' Hall em Londres foi construído entre 1927-1933 como memorial aos mais de 3.000 maçons mortos na Primeira Guerra Mundial. Após ambas as guerras mundiais, houve um grande aumento na criação de novas lojas, frequentemente por veteranos que buscavam camaradagem.

A partir da década de 1990, a UGLE adotou uma postura mais aberta perante a sociedade, promovendo dias de portas abertas e maior transparência para combater teorias da conspiração, posicionando-se como uma "sociedade privada" e não uma "sociedade secreta". Os seus princípios fundamentais, estabelecidos em 1929, incluem a crença num Ser Supremo (o Grande Arquitecto do Universo), a lealdade ao governo civil e a abstenção de discussões políticas e religiosas nas lojas.

Atualmente, a UGLE é o órgão regulador da maçonaria regular em Inglaterra, País de Gales e em algumas jurisdições da Commonwealth. É presidida pelo Príncipe Eduardo, Duque de Kent (Grão-Mestre desde 1967) e supervisiona mais de 200.000 membros em milhares de lojas. Mantém um significativo trabalho filantrópico, direcionado tanto para membros como para a comunidade em geral.

Em suma, a história da maçonaria inglesa é a da evolução de uma sociedade de construtores para uma fraternidade filosófica global, marcada por um evento fundador em 1717, um cisma profundo e uma união duradoura que a consolidou como a principal referência da maçonaria regular mundial. A sua capacidade de preservar tradições ancestrais enquanto se adapta aos tempos modernos é central para a sua identidade e sobrevivência.