A História da Maçonaria na Holanda

1. Origens e Fundação da Maçonaria Holandesa
A Maçonaria moderna, como instituição especulativa, organizou-se na Inglaterra em 1717 com a fundação da Grand Lodge of London. Sua difusão na Europa continental foi rápida, beneficiando-se das conexões intelectuais, comerciais e dinásticas da época. Nos Países Baixos, as primeiras lojas maçônicas surgiram na década de 1730, frequentemente formadas por britânicos residentes e por holandeses com ligações internacionais. A primeira loja documentada em território holandês foi "Loge du Grand Maître des Provinces Unies", em Haia, por volta de 1734.
Em 1756, as lojas holandesas decidiram constituir uma obediência nacional independente da Inglaterra: o "Grootoosten der Nederlanden" (Grande Oriente dos Países Baixos). Essa autonomia precoce refletiu não apenas o desejo de autogoverno, mas também o caráter cosmopolita e mercantil da sociedade holandesa do século XVIII. A data de 1756 é considerada o marco fundador da Maçonaria regular holandesa como corpo organizado.
2. Características da Maçonaria Holandesa: Tolerância e Não-Confessionalidade
Desde cedo, a Maçonaria holandesa distinguiu-se por sua ênfase na tolerância religiosa e filosófica. Num país marcado pela diversidade calvinista, católica e judaica, as lojas funcionaram como espaços de convivência supraconfessional. Diferentemente de outras nações europeias, onde a Maçonaria enfrentou condenação papal ou controle estatal, nos Países Baixos ela manteve relações geralmente pacíficas com as autoridades, embora sob vigilância.
O Grande Oriente dos Países Baixos (oficialmente: Orde van Vrijmetselaren onder het Grootoosten der Nederlanden) adotou uma postura não-confessional, permitindo a liberdade de crença a seus membros, mas exigindo fé em um "Princípio Criador" (um requisito tradicional da maçonaria regular). Essa posição facilitou sua integração na sociedade, sem abrir mão dos Landmarks básicos.
3. Expansão Colonial: Índias Orientais e Ocidentais
Como mencionado no texto de referência, a expansão colonial holandesa levou a Maçonaria para o Caribe, Suriname, África do Sul e as Índias Orientais (atual Indónesia). A primeira loja nas Índias Ocidentais foi "La Parfait Union" (1734-1735, restabelecida em 1754 em Santo Eustáquio), seguida por "De Vriendschap" em Curaçau (1757). Nas Índias Orientais, "La Choisie" (Batávia, 1764) foi pioneira.
Essas lojas coloniais serviam como centros de sociabilidade e cooperação entre europeus, muitas vezes desempenhando papéis filantrópicos e culturais. Elas também refletiam as hierarquias coloniais, com membros majoritariamente europeus, embora haja registros de membros de elites locais não europeias em algumas lojas.
4. Século XIX: Consolidação e Diversificação Interna
O século XIX trouxe desafios, como a ocupação francesa (1795-1813), que levou à intervenção napoleônica nas associações. Após 1815, com o Reino dos Países Baixos, a Maçonaria recuperou autonomia. Nesse período, surgiram correntes dissidentes, como a "Ordem dos Pedreiros Livres Negros" (uma obediência de caráter mais cristão, ativa no século XIX) e, mais tarde, influências do Rito Escocês Antigo e Aceito.
A estrutura do Grootoosten manteve-se como a principal obediência, organizando-se democraticamente: o Grande Oriente (assembleia geral anual de representantes das lojas) elege o Grande Mestre, Grande Secretário e Grande Tesoureiro, além de um conselho executivo. Como destacado, todos os cargos são não remunerados, reforçando o caráter de associação voluntária.
5. Século XX: Guerra, Resistência e Secularização
Durante a Segunda Guerra Mundial, a ocupação nazista (1940-1945) proibiu a Maçonaria, confiscou seus bens e perseguiu seus membros. Muitos maçons holandeses participaram da resistência. Após a guerra, a Ordem foi refundada, mas enfrentou um declínio gradual no número de membros, como em grande parte da Europa.
A partir dos anos 1960, a sociedade holandese tornou-se mais secularizada, o que gerou debates internos sobre o requisito de crença em um "Princípio Criador". O Grootoosten manteve a tradição, mas algumas lojas tornaram-se mais liberais. Também surgiram obediências mistas (como a "Ordem dos Pedreiros Livres para Homens e Mulheres") e femininas, fora da estrutura do Grande Oriente.
6. Atualidade e Presença Global
Atualmente, o Grootoosten der Nederlanden continua sendo a principal obediência masculina regular, com cerca de 150 lojas nos Países Baixos e três grandes lojas provinciais ativas:
Suriname(desde 1907)
Caribe(lojas em Aruba, Curaçau, São Martinho e outras ilhas)
Zimbabwe(herdeira das lojas da antiga Rodésia do Sul, com laços históricos com a Holanda)
A Maçonaria holandesa mantém relações de reconhecimento mútuo com as grandes lojas regulares de outros países, incluindo a United Grand Lodge of England. Sua atuação é discreta, focada em desenvolvimento pessoal, filantropia e diálogo social.
Fontes Acadêmicas de Referência (além do texto fornecido):
Van Henten, A.(1995).
Vrijmetselarij in Nederland– estudo abrangente sobre a história institucional.
Klooster, W.(2008).
Freemasonry in the Dutch Colonial Empire, in "Freemasonry and the Enlightenment".
Jacob, M.(1991).
Living the Enlightenment: Freemasonry and Politics in Eighteenth-Century Europe– contexto europeu.
Educado, J.A.M.(2010).
De Nederlandse vrijmetselarij sinds 1945– análise do período pós-guerra.
Arquivos do Nederlandsch Maconniek Tijdschrift– revista maçônica holandesa com artigos históricos.

