A História da Maçonaria na França

03/12/2025

A história da maçonaria francesa não se resume à crónica de uma sociedade secreta, mas constitui um observatório privilegiado para compreender os profundos desvãos da história política, social e intelectual de França desde o século XVIII. A maçonaria, tal como se desenvolveu em solo francês, encarnou uma forma única de sociabilidade que, longe de forjar de modo isolado o destino do país, foi profundamente forjada por ele, moldando-se e remodelando-se em resposta às suas convulsões, desde o Ancien Régime até à contemporaneidade. A sua evolução reflete a tensão permanente entre tradição e modernidade, espiritualidade e racionalismo, universalismo e identidade nacional.

1. Introdução: Enquadramento Histórico e Historiográfico

A historiografia da maçonaria em França percorreu um caminho tortuoso. Durante séculos, o tema foi excluído das narrativas históricas académicas tradicionais, ficando refém de autores francamente pro ou anti-maçónicos, sendo os primeiros frequentemente membros da própria Ordem. Só a partir da segunda metade do século XX, com o atenuar do conflito político e religioso, se estabeleceu um terreno mais propício para o estudo rigoroso e neutro, designado por alguns como "Masonologia". Este artigo procura contribuir para esta abordagem académica, analisando a evolução da maçonaria francesa através de uma perspetiva integrada, focando as suas origens, transformações filosóficas, ruturas institucionais e impacto social, com base numa análise crítica das fontes e da historiografia disponível.

2. Das Origens Jacobitas à Consolidação Nacional (1688-1773)

As raízes da maçonaria especulativa em França encontram-se no exílio britânico. Segundo uma tradição documentada desde 1777, a primeira loja terá sido fundada em 1688 em Saint-Germain-en-Laye por membros do Royal Irish Regiment, que acompanhou Jaime II de Inglaterra no exílio. Embora esta alegação seja difícil de verificar, ela sinaliza um facto crucial: a maçonaria foi inicialmente importada por jacobitas exilados, que nela viam uma rede de sociabilidade e possível apoio político.

A primeira fase de organização ocorre sob a égide de Grão-Mestres britânicos, como Philip Wharton, Duque de Wharton (reconhecido em 1728), e os jacobitas James Hector MacLean e Charles Radcliffe, Conde de Derwentwater. Esta tutela simbólica começou a ceder em 1738, quando uma assembleia de representantes de lojas "inglesas" e "escocesas" elegeu o primeiro Grão-Mestre francês, Louis de Pardaillan de Gondrin, Duque d'Antin, criando a primeira Grande Loja de França. Este ato é considerado uma declaração de independência face à Grande Loja de Londres.

Contudo, a consolidação da estrutura nacional deu-se sob o grão-mestrado de Louis de Bourbon-Condé, Conde de Clermont (1743-1771), um príncipe do sangue frequentemente ausente devido aos seus compromissos militares. Este período foi marcado por uma governação débil e descentralizada, com poder efetivo nas mãos de substitutos e com as lojas provinciais organizadas em estruturas quase autónomas. Internamente, a jovem instituição foi abalada por conflitos entre duas fações: os "lacornards" (aristocratas parisienses de tendência filosófica mais liberal) e os "anti-lacornards" (burgueses provinciais mais conservadores em matéria religiosa). Estas divisões, aliadas ao escândalo público de 1767 que levou à suspensão policial dos trabalhos, revelaram a necessidade de uma profunda reforma.

A morte do Conde de Clermont em 1771 abriu caminho para uma transformação radical. Sob a liderança do seu sucessor, Louis-Philippe d'Orléans, Duque de Chartres (futuro Philippe Égalité), e impulsionada por figuras como o Duque de Luxemburgo, a Grande Loja foi refundada em 1773 sob um novo modelo administrativo, assumindo o nome de Grande Oriente de França (GODF). Esta reforma, descrita como uma passagem de um "sistema monárquico e autocrata para um sistema republicano e democrático", instituiu uma assembleia representativa com deputados de todas as lojas, enfraquecendo a hegemonia parisiense e aristocrática. Algumas lojas resistiram à mudança, formando a efémera Grande Loja de Clermont, que viria a fundir-se com o GODF em 1799.

3. A Revolução Filosófica e o Cisma de 1877

O século XVIII foi também palco de uma revolução no conteúdo espiritual da maçonaria francesa. Se, por um lado, a influência britânica introduziu um ritual mais sóbrio (o Rito dos Modernos), por outro, a cultura continental, estimulada pelo Discurso do Cavaleiro Ramsay (1736), favoreceu a proliferação de Altos Graus de inspiração cavaleiresca, esotérica ou templária. Esta tendência levou à criação de sistemas rituais complexos, como o Rito de Perfeição, que, levado para as colónias francesas das Antilhas, acabaria por dar origem, nos Estados Unidos, ao Rito Escocês Antigo e Aceite (REAA).

Paralelamente, desenvolveu-se na França um ethos intelectual distintivo. A maçonaria francesa imbuiu-se, desde cedo, de um "espírito crítico e científico", opondo-se ao dogmatismo e ao obscurantismo da época. Esta orientação, alimentada pelas Luzes, preparou o terreno para uma das maiores ruturas na história do maçonismo mundial. Em 1877, sob o impulso do pastor protestante e maçon Frédéric Desmons, o Grande Oriente de França suprimiu a obrigatoriedade da crença em Deus e no Grande Arquitecto do Universo. Esta decisão, justificada como uma defesa da liberdade absoluta de consciência, visava enquadrar o ateísmo e o agnosticismo que ganhavam força no século XIX.

A consequência foi imediata e profunda. O ato foi interpretado pela Grande Loja Unida da Inglaterra (UGLE) e pela maçonaria de tradição anglo-saxónica como uma violação dos Landmarks (princípios fundamentais) da Ordem. Declararam, assim, o GODF como "irregular", consumando o Grande Cisma entre a maçonaria "continental" ou "liberal" e a maçonaria "regular" de matriz britânica. Em França, esta decisão não foi unânime. Em 1894, lojas que desejavam manter a referência ao Grande Arquitecto do Universo separaram-se do GODF e formaram a Grande Loja de França (GLDF), que se tornou a guardiã principal do REAA em solo francês. Este cisma institucionalizou a diversidade filosófica que ainda hoje caracteriza o panorama maçónico francês.

4. Diversificação e Conflito: A Estruturação do Campo Maçónico Francês (Séculos XIX-XX)

A história da maçonaria francesa após a Revolução é a de uma fragmentação progressiva e da formação de um campo maçónico plural e por vezes conflitual. Esta diversificação seguiu três vetores principais: a relação com o poder político, a orientação filosófica e a questão de género.

O Grande Oriente de França:

Manteve-se como a obediência mais numerosa e politicamente comprometida. Ao longo da Terceira República, posicionou-se como um

pilar da governação republicana, laica e anticlerical

, envolvendo-se ativamente em batalhas como a laicização da escola e a separação entre Igreja e Estado. Este ativismo, por vezes controverso (como no

Caso dos Fichários

, em 1904-1905, em que maçons forneceram informações sobre as convicções de oficiais do exército), consolidou a sua imagem como um

"partido da República"

informal. O seu perfil é definido como laico, filosófico e socialmente empenhado.

A Grande Loja de França:

Após a sua fundação em 1894, a GLDF afirmou uma identidade mais

espiritualista e tradicionalista

. Enquanto trabalha os três primeiros graus do REAA, impõe a presença do Volume da Lei Sagrada (a Bíblia) e a invocação ao Grande Arquitecto do Universo nos seus trabalhos. Embora também empenhada nos valores republicanos, distingue-se do GODF por proibir discussões políticas e religiosas nas lojas, privilegiando o

trabalho iniciático e simbólico

.

A Grande Loja Nacional Francesa (GLNF):

Fundada em

1913

por lojas que pretendiam uma prática estritamente conforme os padrões da UGLE, a GLNF distinguiu-se por obter o

reconhecimento da obediência inglesa

em 1917. A sua identidade assenta no

monoteísmo

e na rejeição absoluta de debates políticos ou religiosos em loja, representando a ala mais "regular" da maçonaria francesa no sentido anglo-saxónico.

A Maçonaria Feminina e Mista:

A história da maçonaria francesa também é marcada pela lenta abertura às mulheres. A

Maçonaria de Adoção

, de cariz aristocrático e cerimonial, existiu desde o século XVIII, mas as mulheres eram vistas como "adotadas" e não como membros de pleno direito. O passo decisivo foi dado em

1893

, com a fundação da

Ordem Mista Internacional Le Droit Humain

por Maria Deraismes e Georges Martin, criando a primeira obediência verdadeiramente mista do mundo. Posteriormente, em 1945, formou-se a

Grande Loja Feminina de França (GLFF)

, estabelecendo uma via exclusivamente feminina. Esta diversificação ilustra o compromisso da maçonaria liberal francesa com os ideais de igualdade, mesmo dentro das suas próprias estruturas.

Este campo multipolar foi palco de relações tensas, especialmente entre o eixo "liberal" (liderado pelo GODF) e o eixo "regular" (ligado à GLNF e, por extensão, à UGLE). Em períodos de crise, como o da ocupação nazi, todas as obediências foram severamente perseguidas, com os seus templos saqueados, arquivos confiscados e membros deportados, o que levou a uma perda de cerca de dois terços dos efetivos.

5. A Maçonaria e o Estado Francês: Entre Colaboração e Perseguição

A relação entre a maçonaria e o Estado em França oscilou entre a colaboração instrumental e a repressão violenta, refletindo a natureza do regime político em vigor.

O Período Napoleónico:

O Primeiro e o Segundo Império procuraram controlar estritamente a maçonaria, transformando-a num

instrumento de consolidação do regime e de promoção social

. Napoleão I colocou-a sob a tutela do seu irmão Joseph Bonaparte e de Cambacérès, transformando-a num pilar do regime. Napoleão III nomeou diretamente os Grão-Mestres (Lucien Murat e depois o Marechal Magnan) e procurou, sem sucesso total, forçar a unificação de todos os ritos sob o GODF. Durante estes períodos, a maçonaria floresceu numericamente, especialmente através das lojas militares, mas à custa da sua autonomia política.

A Terceira República:

Este foi o período de maior

simbiose entre a maçonaria (sobretudo o GODF) e o Estado republicano

. Muitos membros do governo, parlamentares e altos funcionários eram maçons. A ordem empenhou-se nas grandes reformas laicas e sociais, tornando-se um

agente ativo da engenharia social republicana

. Esta proximidade gerou a narrativa, explorada por adversários clericais e de direita, de uma "República Maçónica" governada por conluios secretos.

O Regime de Vichy e a Ocupação (1940-1944):

A queda da República em 1940 levou à mais brutal perseguição. O regime de Vichy, ideologicamente antimaçónico, dissolveu as obediências por lei em agosto de 1940. As suas instalações foram ocupadas, os bens confiscados e os membros foram alvo de perseguição, especialmente através do

Serviço das Sociedades Secretas

, que publicava a revista

"Les documents maçonniques"

. A maçonaria foi apresentada, juntamente com os judeus, como uma das causas da derrota da França. Centenas de maçons foram deportados e assassinados, muitas vezes devido à sua dupla condição de judeus e maçons ou à sua participação na Resistência.

6. Conclusão: A Maçonaria Francesa como Laboratório da Modernidade

A história da maçonaria em França é a narrativa de uma instituição que, ao longo de três séculos, serviu de laboratório para as grandes correntes da modernidade ocidental. Das Luzes ao Positivismo, do republicanismo ao laicismo, das questões de género ao ecumenismo espiritual, os debates que agitaram a sociedade francesa encontraram eco e espaço de experimentação nos seus templos.

A sua trajetória única foi marcada por características distintivas: a precoce nacionalização face à matriz britânica; a revolução filosófica de 1877 que a colocou no centro do debate sobre a secularização; a fragmentação em múltiplas obediências que espelham as clivagens da sociedade francesa (religiosa, política, filosófica); e uma relação ambígua com o Estado, alternando entre a condição de parceiro privilegiado da República e de bode expiatório dos regimes autoritários.

Hoje, embora tenha perdido a influência política direta de que gozava na Terceira República, a maçonaria francesa permanece uma realidade sociológica e cultural significativa. Continua a ser um espaço de reflexão e de sociabilidade que atrai milhares de cidadãos, mantendo vivas as interrogações sobre os seus próprios fundamentos: entre tradição e progresso, espiritualidade e racionalismo, fraternidade interna e engajamento cívico. O seu estudo, agora integrado na academia, oferece-nos não apenas as chaves para compreender uma instituição singular, mas também um espelho extraordinário para refletir sobre as tensões e aspirações que têm moldado a França contemporânea.