A História da Maçonaria na Escócia

19/11/2025

A História da Maçonaria na Escócia: Das Origens Operativas à Constituição Especulativa

Autonomia das Lojascorpos soberanos27 de dezembro de 1732"erguer uma casa para uso da Loja"Pluralidade Ritualística"ritual escocês"pontos principais de cada grauRegalia e Identidade Visualverde e ouropadrões de tartanEstrutura dos GrausGrau de Mestre Mark (Mark Master)The Origins of Freemasonry: Scotland's Century, 1590–1710The First Freemasons: Scotland's Early Lodges and Their MembersHistory of the Lodge of Edinburgh (Mary's Chapel) No. 1História da Loja St. John, Dunfermline No. 26Cracking the Freemason's Code

Introdução

A Escócia ocupa uma posição singular e incontestável na história da Maçonaria universal. A história documental mais antiga da fraternidade, a continuidade institucional direta entre as guildas de pedreiros operativos e as lojas especulativas, e o desenvolvimento de uma identidade constitucional única consolidam o país como o berço histórico da Maçonaria moderna tal como a conhecemos. Este artigo traça uma análise aprofundada dessa trajetória, desde as suas raízes medievais até à consolidação de uma estrutura grandiosa distintamente escocesa, baseando-se nos registros primários mais antigos e na historiografia académica consolidada.

1. Origens Medievais e a Transição para a Especulativa

As origens da Maçonaria escocesa estão profundamente entrelaçadas com a história das corporações de ofício (guildas) de pedreiros e canteiros. Diferentemente de outras nações, na Escócia esta ligação é documentalmente contínua, não mítica.

A prova material mais eloquente desta continuidade são os Registos da Loja de Edimburgo (Mary's Chapel) No. 1, cujas atas de reunião remontam a 1599. Estes documentos, considerados os mais antigos do mundo maçónico, estão sob custódia da Grande Loja da Escócia e demonstram uma organização já estruturada, com mestres, vigilantes e um sistema de admissão de membros. Contudo, evidências indiretas sugerem origens ainda mais recuadas. A Loja Mother Kilwinning, designada com o número simbólico "0" no rol da Grande Loja da Escócia, reivindica uma fundação no século XII, associada à construção da Abadia de Kilwinning, sendo frequentemente designada como a "Loja-Mãe da Escócia".

Um caso paradigmático desta transição é o da Loja de Dunfermline (hoje Loja St. John, No. 26). Os seus arquivos referem uma ligação direta à "Ludge of Masons of Dunfermling", que detinha as Cartas de St. Clair de 1598 e 1628. Estes documentos, outorgados a favor de William St. Clair de Roslin, estabeleciam o patronato hereditário da família sobre os maçons da região, uma prática feudal que precedeu a estruturação democrática das lojas. A ata mais antiga em posse da loja data de 27 de dezembro de 1698, mas a sua existência anterior às Cartas é assumida, sugerindo uma participação ativa na construção do Palácio de Dunfermline (1540). Esta transição de uma organização operativa, centrada no controle de um ofício e no patronato nobre, para uma sociedade especulativa, focada no desenvolvimento moral e fraternal, processou-se de forma orgânica ao longo do século XVII, com a admissão progressiva de membros não ligados ao ofício da construção, os "accepted masons".

2. A Fundação da Grande Loja da Escócia (1736): Contexto e Conciliação

A fundação da Grande Loja de Londres em 1717 criou um novo paradigma organizativo: uma autoridade centralizada a governar lojas individuais. Em 1736, líderes maçónicos escoceses moveram-se para estabelecer uma instituição análoga, mas o processo e o resultado foram profundamente moldados pelo caráter historicamente independente das lojas escocesas.

A iniciativa partiu de quatro lojas de Edimburgo e arredores: Mary's Chapel, Canongate Kilwinning, Kilwinning Scots Arms e Leith Kilwinning. Em 20 de outubro de 1736, elas emitiram uma circular a "todas as Lojas na Escócia" convidando-as a enviar representantes para eleger um Grão-Mestre. A reunião histórica ocorreu em 30 de novembro de 1736. A Loja de Dunfermline, por exemplo, enviou três representantes: o Capitão Arthur Forbes de Pittencrieff (Mestre), o Balie Charles Chalmers e Henry Finlay (Vigilantes).

Contudo, ao contrário do modelo inglês, a adesão não foi unânime nem imposta. Estima-se que 79% das lojas existentes na época não apoiaram inicialmente a criação da nova Grande Loja. Estas lojas, com tradições, rituais e regalias próprias desenvolvidas ao longo de décadas ou mesmo séculos, relutavam em ceder a sua autonomia a um corpo central. Perante esta realidade, a nascente Grande Loja da Escócia adotou uma estratégia de conciliação e respeito pela autonomia. Em vez de impor uma padronização, garantiu às lojas antigas o direito de manter os seus costumes e práticas em troca da afiliação à nova Constituição Maçónica Escocesa. Este princípio foi subsequentemente estendido a todas as lojas, tornando-se a pedra angular do sistema maçónico escocês.

3. O Carácter Único da Maçonaria Escocesa: Autonomia e Diversidade Ritualística

O compromisso fundacional da Grande Loja da Escócia resultou numa paisagem maçónica notavelmente diversa e não padronizada, um carácter distintivo que perdura até hoje.

Autonomia das Lojas

: As lojas sob a Constituição Escocesa são

corpos soberanos

com controlo considerável sobre os seus assuntos, finanças e propriedade. O interesse em construir uma sede própria é antigo, como atesta a ata da Loja de Dunfermline de

27 de dezembro de 1732

, que autorizava um comité a procurar um terreno e a

"erguer uma casa para uso da Loja"

.

Pluralidade Ritualística

: Não existe um

"ritual escocês"

único e obrigatório. Cada loja tem o direito de conceber o seu próprio ritual, desde que este contenha os

pontos principais de cada grau

(Aprendiz, Companheiro e Mestre) e seja submetido à Grande Loja para escrutínio. Esta liberdade levou a uma riqueza de variações e elaborações regionais e locais.

Regalia e Identidade Visual

: As lojas têm a liberdade de escolher as cores e padrões das suas regalias (colarinhos, aventais). Enquanto a Grande Loja e as Grandes Lojas Provinciais usam

verde e ouro

, muitas lojas incorporam cores próprias ou até

padrões de tartan

tradicionais, reforçando uma identidade escocesa e local.

Estrutura dos Graus

: A prática escocesa integra de forma singular o

Grau de Mestre Mark (Mark Master)

. Este grau é considerado parte integrante da jornada maçónica e é conferido dentro da Loja Azul (de Ofício), após o grau de Mestre Maçom. Esta é uma diferença fundamental em relação à Constituição Inglesa, onde o Grau Mark é administrado por um corpo separado.

4. Corpos Anexos e a Relação com Outras Jurisdições

O ecossistema maçónico escocês estende-se para além das três primeiros graus, através de ordens anexas, mas sempre com uma estrutura peculiar.

O caminho mais comum para um Mestre Maçom escocês é avançar para o Santo Arco Real. Contudo, sob a Constituição Escocesa, a admissão a um Capítulo do Arco Real requer obrigatoriamente a posse prévia do Grau de Mestre Mark. Adicionalmente, os maçons escoceses praticam o Grau de Excelente Mestre, inexistente na ritualística inglesa. Estas diferenças ritualísticas têm implicações práticas na intervisitação entre jurisdições: um maçom do Arco Real inglês, por exemplo, não pode participar numa reunião de um Capítulo escocês onde se trabalhe o Grau Mark, a menos que também o possua.

Para além do Arco Real, ordens como os Cavaleiros Templários e o Antigo e Aceite Rito Escocês são populares na Escócia. O Real Ordem da Escócia é particularmente prestigiado e restrito. Este conjunto de corpos anexos, operando sob a égide de respeito à autonomia, completa a experiência maçónica de muitos irmãos escoceses.

Conclusão

A história da Maçonaria na Escócia é a narrativa de uma evolução singular. Partindo de sólidas raízes operativas documentadas desde o final do século XVI, as lojas escocesas navegaram a modernidade sem abdicar da sua essência autónoma. A fundação da Grande Loja da Escócia em 1736 não representou uma imposição de autoridade, mas sim um pacto de conciliação que elevou a autonomia local a princípio constitucional. O resultado é uma Maçonaria vibrantemente diversa, onde a unidade não significa uniformidade, e onde a fidelidade às tradições mais antigas coexiste com a soberania de cada loja. Esta estrutura única, testemunhada pelos registos da Loja de Mary's Chapel (1599) e pelas Cartas de St. Clair de Dunfermline (1598), garante à Escócia não apenas um lugar de honra na história maçónica, mas também um papel contínuo na definição do seu caráter plural e descentralizado.

Referências Principais

Stevenson, David.

The Origins of Freemasonry: Scotland's Century, 1590–1710

. Cambridge University Press, 1990.

Stevenson, David.

The First Freemasons: Scotland's Early Lodges and Their Members

. Aberdeen University Press, 1988.

History of the Lodge of Edinburgh (Mary's Chapel) No. 1

. Atas a partir de 1599. Arquivo da Grande Loja da Escócia, Edimburgo.

História da Loja St. John, Dunfermline No. 26

. Inclui referências às Cartas de St. Clair (1598, 1628) e atas desde 1698. Disponível em: https://www.lvdgeofdunfermling.org.uk/html/history.html

Cooper, Robert L.D.

Cracking the Freemason's Code

. Rider, 2006.

Kahler, Lisa. *Freemasonry in Edinburgh, 1721-1746: Institutions and Context*. Tese de Doutoramento, Universidade de St. Andrews, 1998.