A História da Maçonaria na Bélgica

A história da Maçonaria no território que atualmente constitui a Bélgica é singularmente complexa e rica, refletindo diretamente as turbulências políticas, religiosas e sociais da região. Desde o século XVIII, a Franco-Maçonaria belga atuou como um microcosmo das influências concorrentes das potências vizinhas e das divisões internas dos Países Baixos meridionais, evoluindo para um movimento pluralista e influente na sociedade belga pós-independência.
Século XVIII: Origens Fragmentadas sob Domínios Estrangeiros
No século XVIII, a região era dividida entre os Países Baixos Austríacos e o Principado-Bispado de Liège. Esta fragmentação política se refletiu na Maçonaria.
Países Baixos Austríacos:A primeira loja belga conhecida,
"La Parfaite Union", foi fundada em Mons em 1721. A vida maçônica inicial era marcada por uma grande diversidade de influências (inglesa, francesa, escocesa, holandesa) devido à presença de tropas estrangeiras e ao comércio. A criação da
Grande Loja Provincial dos Países Baixos Austríacosem 1770, sob o patrocínio do Marquês de Gage em Mons, tentou unificar as lojas sob a égide da Grande Loja de Londres (os "Modernos"). No entanto, a Maçonaria enfrentou a oposição do estado. O
Édito de Joseph II de 1786suprimiu severamente as lojas, limitando-as a apenas três em Bruxelas. Muitas, de caráter efêmero e frequentemente centradas em uma personalidade poderosa, desapareceram. A Revolução de Brabante (1789-90) e a influência da Revolução Francesa permitiram uma discreta revitalização.
Principado-Bispado de Liège:Em Liège, a Maçonaria teve um desenvolvimento mais estável, especialmente sob o príncipe-bispo
François-Charles de Velbrück (1772-1784), ele próprio maçom e protetor da Ordem. Apesar de uma proibição em 1760, lojas como
"La Parfaite Intelligence"e
"La Parfaite Égalité"floresceram, principalmente sob a obediência do
Grande Oriente de França.
O Grande Oriente de Bouillon:Um capítulo peculiar foi o
Grande Oriente de Bouillon, um pequeno ducado soberano. Ligado à causa jacobita (católica) e aos altos graus da Maçonaria, representou uma corrente aristocrática e escocesa de influência, embora documentação escassa limite o conhecimento completo de seu alcance.
1794-1814: O Período Francês e a Reorganização
A anexação da região pela França revolucionária e, posteriormente, napoleônica (1794-1814) trouxe um renascimento maçônico, impulsionado pelas lojas militares francesas. Este período viu a ascensão de lojas que se tornariam pilares da Maçonaria belga, como "Les Amis Philanthropes" em Bruxelas (fundada em 1798). Sob o controle de Napoleão, a Maçonaria tornou-se uma instituição mais estruturada e, embora predominantemente deísta, mantinha relações menos conflituosas com a Igreja Católica. Ao final do período napoleônico, existiam 27 lojas no território.
1815-1830: Sob o Reino Unido dos Países Baixos
Após o Congresso de Viena, a Bélgica foi unida ao Reino dos Países Baixos. A Maçonaria belga foi integrada à Grande Loja dos Países Baixos, com uma administração separada para o sul. A influência holandesa, no entanto, foi limitada. Este período foi marcado por uma notável diversidade de ritos. Além do Rito Moderno promovido pela obediência, coexistiam o Rito Escocês Antigo e Aceito (cujo Supremo Conselho belga foi fundado em 1817) e o singular Rito Escocês Primitivo (ou Rito de Namur), este último com raízes no século XVIII e sob a liderança do Príncipe de Gavre.
1830 em Diante: O Grande Oriente da Bélgica e a Consolidação Nacional
A Revolução Belga de 1830 levou à criação de uma obediência nacional. Em 1833, foi fundado o Grande Oriente da Bélgica (G.O.B.). O rei Leopoldo I (iniciado em Berna) apoiou sua criação, mas recusou o cargo de Grão-Mestre, que foi assumido pelo Barão Goswin de Stassart.
Este foi um período de radicalização anticlerical. A encíclica Mirari Vos (1832) e a condenação episcopal belga de 1837 proibiram a dupla filiação católico-maçônica. Como resposta, em 1834, a loja "Les Amis Philanthropes", por iniciativa de Théodore Verhaegen, fundou a Universidade Livre de Bruxelles (ULB), um marco na luta pelo ensino laico. A Maçonaria belga transformou-se progressivamente em um bastião do liberalismo e do anticlericalismo, afastando-se do deísmo católico do período anterior.
Século XX: Diversificação, Guerras e Reconfigurações
O século XX foi definido por quatro grandes desenvolvimentos:
A Questão Feminina:O início do século viu o surgimento da Maçonaria mista. A educadora
Isabelle Gatti de Gamondfoi a primeira mulher iniciada na Bélgica. Após controvérsias, em 1912 foi fundada a primeira loja da obediência mista
Le Droit Humain. Posteriormente, nasceriam obediências exclusivamente femininas, como a
Grande Loja Feminina da Bélgica(1981).
As Duas Guerras Mundiais:Durante ambas as ocupações alemãs (1914-18 e 1940-44), a Maçonaria foi banida e perseguida. Muitos maçons foram presos, deportados ou executados (como Jules Hiernaux, Grão-Mestre do G.O.B., em 1944). Notavelmente, atividades maçônicas simbólicas continuaram na clandestinidade, até mesmo em campos de concentração (e.g., a loja
"Liberté chérie"em Esterwegen).
O Cisma Regular x Liberal:No pós-Segunda Guerra, o panorama maçônico internacional polarizou-se. Em 1959, lojas descontentes com a orientação "liberal" do G.O.B. (que admite agnósticos e não exige crença em um "Grande Arquitecto do Universo") formaram a
Grande Loja da Bélgica (GLB), alinhada aos princípios de "regularidade" ditados pela
United Grand Lodge of England (UGLE). Em resposta, o G.O.B. ajudou a fundar o
CLIPSAS(1961), uma organização de obediências liberais. Uma cisão posterior na GLB levou à formação da
Grande Loja Regular da Bélgica (GLRB), atualmente a única reconhecida pela UGLE.
Pluralismo Contemporâneo:No final do século XX, o cenário maçônico belga consolidou-se como um dos mais diversificados do mundo. Coexistem múltiplas obediências masculinas, femininas e mistas, cada uma com seus próprios sistemas de altos graus (Supremo Conselho do R.E.A.A., Grande Colégio do Rito Escocês, etc.) e ritos variados (Rito Moderno, R.E.A.A., Rito de Memphis-Misraïm). Este pluralismo reflete a própria complexidade da sociedade belga, marcada pelo federalismo e pelo multiculturalismo.
Conclusão
Academicamente, a história da Maçonaria na Bélgica não é linear. É uma narrativa de fragmentação inicial, influência estrangeira, consolidação nacional anticlerical e, finalmente, pluralismo institucional. A Maçonaria belga serviu como arena para os grandes conflitos ideológicos (absolutismo vs. liberalismo, clericalismo vs. laicidade) e, mais recentemente, adaptou-se à diversidade da sociedade civil. Seu estudo oferece uma perspectiva privilegiada para compreender a construção do estado-nação belga, a luta pela secularização e a evolução das sociabilidades e ideais filosóficos na Europa Ocidental.

